08/06/2012

O Belo e o Feio de morar no mesmo prédio que o dono do apartamento

-->

O Belo:
Eles confiam em você com mais facilidade. Pedem menos comprovações de renda, pois estão do lado para cobrar. Os apartamentos costumam ser bem conservados.

O Feio:
Eles enchem a porra do saco.



Pois é. Enchem mesmo.

Quando mudamos para nosso atual endereço, um basement com janelas grandes e apartamento lindão, nos comprometemos a pagar em dia o aluguel. Nosso contrato, como é comum aqui no Canadá, prevê que, para sairmos do apto temos que dar 2 meses de antecedência. Tb prevê que hospedes por mais de 24 horas devem ser comunicados à Dona (prédio familiar), que é proibido fumar, que para ela entrar aqui dentro, deve dar 24 horas de aviso prévio, entre outras coisas.

Quando mudamos, parecia um sonho. O apto é realmente uma fofura, espaçoso, talvez o apartamento mais legal no qual já morei. Quando chegamos, havia na nossa geladeira uma cesta de frutas, legumes e vegetais. Alguns talheres e panelas em cima da bancada. Uns móveis usados que podíamos pegar emprestados, um cobertor, lençóis e outras coisinhas que ela deixou pra gente “para que não chegássemos sem nada”.

Achamos uma graça e ficamos até emocionadas.

Dona Cocota, como a chamamos agora para não falar o nome dela alto, nos recebeu como se fossemos da sua família. Disse que tinha algum trauma causado por inquilinos antigos (viciados em crack, segundo ela), mas que parecíamos boa gente.

O Arranjo do prédio é (era) o seguinte: Nós no basement, Dona Cocota no 1o andar e sua filha + namorado no 2o andar.

Nos primeiros meses tudo era festa. O casal nos convidou para passearmos com eles (mas foi um saco), para churrascos no quintal (que não fomos, mas tudo bem). Dona Cocota nos chamou para festas de família na sua casa. Fomos e ficávamos sentadas num cantinho ao lado da mesa de comida, naquela situação “coloca o que pode na boca para não ter que falar nada com essa gente esquisita”. Os parentes de dona Cocota, todos imigrantes chineses, olhavam pra gente com uma certa pena dessas duas brasileiras que, certamente, deviam ser pobres pois comiam sem parar. E eles, sem ter muito o que dizer, enchiam nossos pratinhos com mais comidas. Ficamos tipo 1 horas e saímos fugidas, para nunca mais.

Todo dia dona Cocota batia em nossa porta uma ou duas vezes, trazendo comidinhas e quitutes. No começo era fofo, depois começou a irritar. Todo dia ela vinha. Nos horários mais estranhos. Um dia ela bateu pela terceira vez, era meia noite e meia. Estávamos na sala assistindo a um filme e eu falei pra D. Mari: acho que vou atender nua e descabelada, enrolada em um lençol. Depois disso DU_VI_DO que ela bata aqui de novo. D. Mari não deixou. Mas foi necessário muito menos do que isso pra ela parar de bater na nossa porta.

O necessário foi apenas a chegada do outono e, com ele, o frio.

Frio. Nosso apartamento é frio. Amigos que moram na Europa sem aquecimento no prédio vão dizer que é besteira, mas no inverno, um apto estanso a 16 graus é frio pacas. Inda mais quando vc sabe que lá fora ta, 0, -10, -26... Vc acorda é frio e tem neve na janela. Dá mais frio ainda.

Então logo começamos a pedir para que o apto fosse mais aquecido.

Um dia, Dona Cocota apareceu aqui e disse que não ia aquecer mais o prédio até o meio do inverno pois era caro demais e o Canadá é frio mesmo então nós que nos acostumássemos a ele.

Pronto. Iniciada a guerra.

Eu fiquei imediatamente puta com aquilo. Fomos pesquisar na internet e descobrimos que é nosso direito ter a casa toda aquecida a pelo menos 21 graus durante outono, inverno e meados da primavera. Ou seja: de setembro até dia 1o de junho. Um dia deixei claro que sabia da lei para a filha de Dona Cocota.

Poucos dias depois aparece um aquecedor gigante na nossa porta. E é isso. Colocamos ele pra fora pois era elétrico e nós pagamos a eletricidade por fora. Trocas de emails e conversas mais tarde, D. Cococta concordou em pagar a diferença.

Mas, depois de desgastes demais por conta do aquecimento, acabou toda a fofura. Quando avisei que meu irmão vinha de visita: ela disse que tudo bem, “ela deixava”. Quando chegou a conta de luz, ela pagou parcialmente porque disse “que não tinha mais dinheiro”. Um dia ela avisou que precisaria do sofá cama que nos havia emprestado dali a poucos dias. Saímos correndo para comprar outro,  as pressas pq meu irmão estava chegando, que foi entregue e ela só tirou o sofá dela a nossa casa meses depois, e depois de muito reclamarmos.

O clima é outro. E a gente Tb já não agüenta ouvir os passos dela lá em cima. Passinhos de elefante. Quando ela bate aqui em casa, que é raro, sempre arruma uma desculpa pra ficar bisoiando tudo.

Sempre pagamos aluguel, internet e uso da maquina de lavar em dia, mas quando podíamos o cheque do aquecimento ela sempre inventava uma desculpa.
A melhor era quando ela dizia que não estava em casa e nós ouvíamos seus passos na sala.

Bom, um belo dia encontro com sua filha aqui na frente e ela avisa que o namorado vai se mudar.  A gente até que não achou ruim, pq o cara é um tipo meio estranho, mas não esperávamos que fossemos ser incluídas nos dramas familiares que se seguiram.

Quando ela estava em casa, ele não estava. Eles se evitavam e ela foi morar com os tios enquanto ele procurava apartamento. Ele, toda oportunidade que tinha, vinha falar mal da família dela. Acabou por nos contar que a historia de que moraram pessoas drogadas no nosso apartamento era pura mentira de Dona Cocota e que nós somos suas primeiras inquilinas.

Um belo dia aparece um caminhão de mudança aqui no prédio. Eu já tinha saído. Dona Mari relata que o caminhão chega, Homens fazem a mudança do cara, em seguida chega D. Cocota filha. Depois ela sai. Depois o caminhão sai. Depois a internet cai.

Horas depois D. Mari sai de casa, descobre a porta dos fundos do prédio escancarada. Tranca. Passamos a tarde fora. Inclusive foi a mesma tarde em que houve um tiroteio dentro do EatonCenter  e nós estávamos lá, só que do lado de fora. Passamos a noite em um bar com uma amiga e eu voltei mais cedo (pra variar).

Uma e meia da manhã eu chego em casa. O prédio todo escuro e eu encontro a porta de trás ESCANCARADA.

Não sei porque eu entrei. Gritando, acendendo todas as luzes, mas entrei. Devia ter chamado a policia, mas como tava uma confusão por conta da mudança do homem, não chamei. Não havia ninguém no prédio, graças a deus. Tranquei a porta e fui dormir.

No dia seguinte continuamos sem internet. Tentamos falar com D. Cocota, mas descobrimos que ela não está. Ninguém está no prédio. Lembro que no 3o andar, pela entrada da frente, fica o aparelho da internet que podemos checar. Tentamos abrir nossa porta da frente e descobrimos que ela está atravancada por ummonte de objetos. Tentamos abrir a porta da frente do prédio por fora, está trancada de uma forma tal que não conseguimos. Ninguém responde telefone. Nem D. Cocota, nem filha, nem o ex-namorado. Fiquei puta e empurrei tanto a porta que ela abriu, quase quebrando um Buda enorme de pedra. Carreguei todas as tranqueiras para a frente da porta dos outros e vi que o aparelho da internet tava desligado. Liguei. Resolvido.

De tarde, enquanto dávamos um passeio, liga D. Cocota. A filha ouviu nosso recado e ela ligou pra saber se estava tudo bem, pois havia viajado. Contamos do episódio da porta escancarada duas vezes. Ela perde para checarmos se as portas dos aptos estão trancadas. Checamos e tudo certo. Logo depois liga o ex-namorado dizendo que tinha sido acusado de tentar provocar o mau à família deixando propositadamente a porta aberta e querendo nos convencer de que ele é uma pessoa boa e nunca faria isso...........

Deus!

Morar nesse prédio é fazer parte dessa família louca.

Pelo menos  todo mundo sumiu e, nos últimos dias, estamos vivendo na paz do senhor.... Só não sabemos até quando.

12/03/2012

Momentos em Toronto - fotos

Nuit Blanche

Show do Postishead

Mercado de St Lawrence

Jardim em Toronto Island

Toronto vista de Toronto Island

occupy toronto

Bairro Chinês

Mesa de Caipirinha da nossa 1a festa

Primeira neve que vimos cair

E a primeira vez que gelei a cerva lá fora

Sempre útil

Homem no High Park

Primeira vez que patinei no gelo, com meu irmão

Casa Loma

Toronto vista da CN Tower

NBA

High Park

Tibetanos protestando contra a ocupação Chinesa - Queen St West

Roupas variadas para o 1o dia de sol e calor

Lago Ontario

Cervejinha no patio

24/02/2012

Life Drawing em Toronto

Quando eu era nova (agora sou velha) fiz um curso de desenho no Parque Lage. Foi a primeira vez na vida que tive contato com o desenho de modelos vivos. Foi uma grande descoberta, isso de desenhar o corpo humano. Mais tarde cursei um semestre do Curso de Propaganda e Marketing da Universidade Mackenzie, em São Paulo, e tínhamos aulas de desenho duas vezes por semana, muitas vezes com modelos vivos. Eu amava. Passava a semana inteira ansiosa pela próxima aula.
Infelizmente, depois dessas duas experiências, nunca mais tive essa oportunidade. Cheguei mesmo a me fotografar nua para tentar ter algum modelo, mas não deu muito certo. A vida tomou outros rumos e eu não virei artista plástica. Mas morria de saudades.
Tempos depois, meu irmão, que tinha acabado de se mudar para NY, descobriu por lá umas sessões de desenho de modelo vivo, um tal de Drink and Draw. A idéia é pagar uma pequena taxa (de 15 dólares) e você tem em troca 2 horas de desenho de um modelo vivo e cerveja liberada. Ele imediatamente se viciou e de tanto freqüentar começou a desenhar muito, muito bem e a postar os desenhos na internet.
Eu morria de inveja, pra falar a verdade, e quando fui à NY visitá-lo fiz questão de ir no tal Drink and Draw. Obviamente me amarrei e, chegando em Toronto, fiquei me perguntando se não havia algo do tipo por aqui.
Pois bem, entrando em uma das muitas lojas de arte, perguntei ao balconista sobre esse tipo de curso e ele me deu um panfleto do curso aberto do Hotel Gladstone. Demorei a ir, pois que trabalho quartas à noite (e o curso funciona de 8 às 10pm), mas tive a oportunidade essa semana e quase derreti de felicidade.
O Hotel Gladstone tem um bar super bacana e uma sala de teatro/cinema no primeiro andar onde, vira e mexe, há exposições, mostras de cinema e coisa e tal. Cheguei um pouco adiantada para ter certeza que teria lugar. A sala era muito mais confortável do que a que eu tinha ido em NY, ampla e com mesas e cadeiras suficientes. Sentei na segunda fila, pois como não desenho há quase 15 anos, estava morrendo de vergonha. A modelo era gordinha e eu nunca tinha desenhado gordinhas, o que foi um desafio à parte. As primeiras poses foram de pouquíssimos minutos, como que para esquentar, e as mais longas tiveram 10 minutos (o que também não é lá tanto tempo), mas deu pra brincar. 

Como eu disse, não me julguem, fiquei muito tempo sem desenhar...

O pagamento de 8.00CAD você faz ao final e alguns engraçadinhos saem de fininho no meio dos intervalos para não pagar (acho uma sacanagem sem tamanho). Um dos engraçadinhos, porém, me contou que em Toronto existem muitos lugares como aquele (e eu imagino que ele seja persona non grata em alguns). Acabei de pesquisar e descobri que existem, mesmo, muitos lugares onde você pode desenhar modelos vivos por uma pequena taxa. Aliás, há inclusive algumas sessões temáticas, como desenho vivo para cartunistas e desenho de poses bondage, que quero SUPER ir.
Além desses express drawing sessions, há cursos mais alongados de artes super acessíveis, é só dar uma pesquisada.
Abaixo, uma breve listagem de lugares que descobri agorinha mesmo e que pretendo ir quando tiver oportunidade:
Centennial College
Sessões de desenho toda quarta feira, de 6-9pm.
Preço: 8 CAD.
http://www.centennialcollege.ca/thecentre/openlife
Central Connection
Sessões toda segunda feira, de 6:30-9:30
Há semanas com modelos nus e semanas com modelos vestidos.
Preço: 10 CAD.
Quem for tem que chegar um pouco antes para ajudar a montar o estúdio.
http://www.centralconnection.ca
Toronto East Community Art Program
Terças de 7-9pm. gratuito, mas tem que registrar
Cada sessão tem um modelo masculino e um feminino.
http://www.tecap.org/12.html
The Toronto Heliconian Group
Todas as segundas de setembro até meados de junho
de 10-12am para poses rápidas e de 1-3pm para mais demoradas
Preço: 6 CAD para cada sessão
http://heliconianclub.org/about/happenings/sketchgroup/
Toronto Cartoonists Workshop
Todas as terças a partir de 13 de março de 7-10pm
As poses duram de 2-30 minutos e os modelos podem estar nus ou vestidos.
Preço: 15 CAD por sessão
http://cartoonistsworkshop.com/wordpress/shop/openlifedrawing
Life Drawing with Edge
Toda segunda terça-feira do mês, de 7:30-10:30. Pedem que se chegue antes.
Desenho de poses eróticas e bondage, para maiores de 18 anos.
Preço: 20 CAD por sessão ou 50 CAD por 3 sessões
http://thekeyholesessions.com/about/attendee-info
Gladstone Hotel
Toda quarta-feira de 8-10pm
Alega ser a aula aberta de desenho mais antiga de Toronto. O hotel sempre tem, também, bons eventos. Vale a pena conhecer.
Preço: 8 CAD
http://www.gladstonehotel.com/events/event-listings/todays-events
Artists 25
Vários horários. Modelos vestidos.
Preço: 8 CAD por sessão
Terças: 7:30 to 10:00 p.m. Desenho de gestos e poses rápidas.
Quintas: 7:30 to 10:00 p.m. Roupas e retratos.
Sextas: 7:30 to 10:00 p.m. Desenho livre
Sábados: 10:00 to 12:30 am e 1:30 to 4:00 p.m. desenho livre
http://www.artists25.ca/index.php?pr=Studio_Sessions
Lembre-se de levar seu próprio material de desenho e divirta-se!

18/02/2012

Blind date gastronômico

Anos atrás, sentada no meu sofá no Rio de Janeiro, eu estava assistindo um dos muitos programas sobre NY e vi uma matéria sobre um restaurante às escuras, onde as pessoas experimentavam comer de olhos vendados. Desde que assisti àquele programa, comer às escuras virou uma espécie de sonho encantado que, vez por outra, voltava à minha cabeça.
Alguns dias atrás uma amiga convidou eu e D.Mari para comer na versão canadense do restaurante. Topei na hora. D.Mari achou que não ia gostar e não topou, infelizmente. Então ontem, sexta feira, Rosa fez uma reserva para 4 (amigos) no O.Noir. Deveriamos chegar lá por volta das 5:45pm para o primeiro serviço da noite, mas excitada, saí de casa 4:20pm.
Do caminho, liguei pra Rosa:
-       Socorro, to excitadíssima. Já saí de casa!
-       Eu também estou. Já estou saindo de casa também.
Tu tu tu tu tu
O telefone desligou.
Ligo de novo:
-       Rosa?
-       To tão ansiosa que desliguei o telefone sem querer!
-       Então ta. Te encontro na port...
Tu tu tu tu tu tu
Fui a última a chegar, como sempre, perdida. Rosa e mais 2 amigos igualmente ansiosos esperavam na mesa. Tiramos fotos e recebemos o menu.


Foto
Quando você chega no restaurante, que fica num subsolo na Church St., a primeira coisa que se faz é sentar numa lounge para decidir os pratos. São 4 escolhas para entrada, prato principal e sobremesa. Alem das quatro, que incluem saladas, massas, risotos, frutos do mar e carnes, há a opção de prato surpresa que encantou a mim e à Rosa.
Imediatamente elegemos prato surpresa de entrada, enquanto os meninos escolheram o polvo. Já estávamos a caminho de escolher o prato principal surpresa quando um dos meninos falou: “Acho arriscado. Vai que eles levam um macarrão com molho de tomate? Imagina a decepção.” Então decidimos que o prato principal iríamos escolher. Eu e Edu fomos de veado e Rosa e Felipe de camarão com risotto. Na sobremesa todo mundo menos Edu, que não quis arriscar em nada e escolheu um bolo de chocolate, foi de prato surpresa.
O metre  anotou os pedidos e perguntou se tínhamos alguma alergia ou preferências. Rosa não come carne e eu não gosto de amendoim na comida. Pedimos um vinho pra acompanhar.
-       Vocês estão prontos? Ele perguntou.
-       Sim!
-       Então me acompanhem.
Fomos até um corredor onde havia portas para diversos salões. De dentro de uma das portas saiu a garçonete, de óculos escuros.
-       Essa é a Diana, ela vai ser a garçonete de vocês por essa noite.
Diana disse “Olá” e, em seguida, mandou que desligássemos os celulares e tirássemos relógios que brilhassem no escuro. Em seguida mandou que formássemos uma fila indiana e colocássemos a mão um no ombro do outro. Entramos em uma ante sala. Ela pediu que fechássemos a porta. Quando ouviu que estava fechada, abriu uma segunda porta e nos orientou a segui-la.
O breu era total. Tipo: TOTAL.
Rosa depois disse que teve um pouco de medo da situação. Era como se, de repente, estivéssemos todos cegos (como Diana). A garçonete nos levou, de dois em dois, para a mesa. Explicou onde deveríamos deixar casacos e bolsas e mapeou, para nós a mesa à frente:
-       Na mesa há um pequeno prato com manteiga em cima. Em frente a isso, seus guardanapos. À direita garfo, à esquerda faca. Se vocês precisarem de qualquer coisa é só me chamar. Volto em breve com o pão.
 A gente tateava a mesa tentando localizar as coisas. Rosa tinha certeza de que ela não tinha guardanapo. Eu não achava minha faca. Estávamos sozinhos nessa sala, sabe-se lá de que tamanho, totalmente escura. Edu logo disse:

-       Cara, esse é o lugar perfeito para um assassinato.
Edu conta sobre seus planos de assassinato no restaurante
Nisso a garçonete volta com o pão.
-       Eu estou aqui. Estendam a mão e peguem o pão.
Eu tinha certeza de que ia ser uma zona. Que iríamos derrubar a cesta, que ia ser uma loucura. Mas a garçonete tinha mãos firmes e correu tudo bem. Então começamos a tentar passar manteiga no pão. E a conversar. Deus! como falávamos alto. Não sei se para compensar o silêncio do ambiente ou a falta da visão. Nisso entra a garçonete com um casal. Abaixamos o tom de voz e percebemos que há uma música que eu defini como “não óbvia” e que o lugar não tinha odor absolutamente algum. A garçonete volta novamente com água. Depois com o vinho. Depois com mais gente a sentar nas mesas.
Quando, finalmente, chega a entrada, o salão começa a encher. Do outro lado alguém pergunta: “Vocês estão comendo o polvo? Como está?” "Uma delícia!”
Os meninos comiam polvo (com as mãos porque era realmente absurdamente difícil acertar com o garfo) e eu e rosa brigávamos com uma salada surpresa. A salada estava deliciosa. mas não conseguíamos saber do que era feita.
-       Beterraba, eu disse.
-       Batata doce, ela disse.
-       Cogumelo.
-       Não, certamente é raiz. 
Rosa e eu, tentando descobrir o que tinha na salada.
Veio a garçonete novamente recolher os pratos (Estendam o prato para mim, deixem os talheres) e trazer a comida. Meu veado estava uma delícia e Rosa estendeu um camarão pra mim. Estendeu no breu total, com a mão, e eu não achava... quando finalmente comi estava uma maravilha. Edu então resolveu pregar peças na gente e mover os copos de lugar. Ao redor as outras mesas, falavam alto, brincavam e com isso a ansiedade de estar no escuro total diminuía.

Porque, você achava que se acostumara e, de repente, notava: tudo preto.

Quando veio a sobremesa Edu disse: Aposto como a sobremesa vai ser sorvete e eu vou comer um bolo delicioso.

A sobremesa era, efetivamente, sorvete. Mas de quê? E embaixo havia uma fruta. Um gosto de álcool também. E cravos. Que fruta era? Que sorvete? Estava uma delícia.
Saímos extasiados. Na hora de pagar pedimos para saber o que havíamos comido. A entrada havia sido salada de cenoura com Rúcula (UAU!) e a sobremesa maçã cozida com cravo e sorvete de vanila.

Nós quatro na mesa. Foto tirada pela garçonete.

Foi uma experiência deliciosa e o fato de não usarmos vendas e sim estarmos em um ambiente totalmente escuro faz com que não haja como “roubar” tirando a venda só um segundinho para olhar o que está comendo ou ajeitar a comida no garfo. Ao mesmo tempo, o breu total também te dá o conforto de que ninguém está vendo a sujeira que você está fazendo ao tentar colocar o risotto no garfo.

Não é um passeio barato (a conta saiu 44.00 CAD mais o vinho, 30.00 CAD /4, mais gorjeta) mas super valeu à pena (imagino que, no Brasil, a conta seria R$ 180,00 + vinho de 80,00 + gorjeta).
Já programo voltar com qualquer visita que queira ir.



13/02/2012

Procurando apartamento

Quando chegamos a Toronto não tínhamos muita idéia da cidade, onde morar, nem sobre quais seriam os preços reais de aluguel. Havíamos feito uma pesquisa anterior, claro, sobre bairros e preços, mas quando você chega na cidade a realidade é sempre muito diferente do que você espera.
A primeira coisa que eu e D.Mari queríamos era viver próximo ao centro. Mas, o que é o centro, exatamente? Toronto tem um zilhão de micro-bairros e, antes de você começar a conhecer a cidade, fica difícil saber o que é o que.


Onde é o Centro, caramba?
Às vezes um bairro é praticamente só uma rua, às vezes é gigante. Depois mesmo de alugarmos nosso apartamento demoramos um tempo pra saber em que bairro estávamos. E isso não é um sentimento incomum.
mapa dos bairros


Para descomplicar nossa vida, decidimos que o centro fica onde fica a Universidade de Toronto e não nos enganamos muito. É mais ou menos isso mesmo. Considerando que o CN Tower (ou Pitoco, como D.Mari gosta de chamar) marca o sul de Downtown.
Aqui vc encontra um guia que ajuda muito a entender os bairros. De qualquer forma, acho seguro pensar que o centro gira em torno dos cruzamentos entre as duas linhas de metrô.
O mapa do metrô. Considero o centro sendo próximo ao U.

Ainda em NY começamos a pesquisar tanto apartamentos quanto quartos para alugar e já marcamos de ver alguns lugares. Os principais sites que usamos na busca foram: Craigslist e o Easy Roommate. 
Bed bug
Antes mesmo de ligar para marcar de ver um apto, colocávamos o endereço no http://bedbugregistry.com/. Para quem não sabe o que é bed bug: é percevejo, um bicho que mora em camas e te devora à noite. É uma praga na América do Norte e pode causar muitos problemas porque é difícil se livrar deles uma vez que você entre em contato. Então é sempre bom saber se o prédio que você vai morar tem ou não uma infestação. E o BedBug Registry tem relatos de quem sofreu com a praga, onde, e como foi a reação dos administradores do prédio a respeito do assunto.
Mapa da infestação em Toronto

Nossa busca
Chegando aqui tínhamos 4 dias assegurados num hostel e mais nada. Uma correria louca para acharmos algum lugar. Esperávamos conseguir um quarto e sala não longe do centro por uns 800-900 CAD e efetivamente achamos alguns lugares nesse preço. Os problemas? A maioria é infestada de bed bug. E os apartamentos que não eram pediam fiador.
Como no Brasil, aqui em Toronto se pede fiador na hora de alugar. Caso você não tenha (e você não tem porque não conhece ninguém na cidade ainda) eles pedem depósito do primeiro e último mês de aluguel e um credit history check, ou seja, eles pedem para analisar sua vida financeira nos últimos meses: se você está com o nome limpo, se deve alguma coisa, se atrasa ou não o pagamento de contas... Bom, se você acabou de chegar nem tem conta ainda (ou mesmo que tenha, ainda não tem um histórico), fica difícil. Então, depois de vermos alguns lugares, descobrimos que alugar um apartamento seria mais difícil do que pensávamos. E alugar quarto seria, sempre, uma opção temporária, pois não queríamos mais viver na casa de ninguém (passamos o último ano e meio de casa em casa).
Acabamos abrindo um pouco mais a carteira e a cabeça e saímos do centro. Viemos parar no que hoje sei que é o Swansea, ou lago dos cisnes... :), morando no basement (ou porão) de um prédio familiar.


Aqui no Swansea tem cisne pacas. Nem no inverno eles vão embora.


Viemos para cá porque a dona do prédio foi com a nossa cara e confiou em nós. Posteriormente descobrimos que muita gente acaba em basements em casas e prédios familiares pelo mesmo motivo – falta de papéis. De qualquer forma assinamos um contrato de um ano e pagamos adiantado o primeiro e o último meses. 


Nossa janela é essa atras da árvore
Pontos a favor: Nosso apartamento é um basement com janelas grandes, ou seja, não é escuro como a maioria, quarto, sala, cozinha grandes. Um belo apartamento. Ficamos do lado do High Park e do Lake Shore, então é um lugar lindo. O apto é todo reformado, atrás da casa tem um laguinho que congela (ou deveria) no inverno e dá(ria) para patinar. A 7 minutos de casa fica o street car, que é 24 horas e em frente de casa passa um ônibus que leva para o metrô em 9 minutos. Dá para ir andando também, mas são uns bons 23 minutos de subida. No prédio tem uma lavanderia que pagamos barato pra usar. O aluguel é mais caro do que imaginávamos (1.100,00 CAD) mas é ok, se vc pensar no tamanho do apto e que é pra duas pessoas. 






Street Car na Queensway, ao lado de casa.
High Park


Lake Shore


Lago Ontario parece praia mesmo
Pontos fracos: Não é absolutamente no centro. Daqui pro centro de Street car são uns 40/50 minutos e de metrô+ônibus outros 30/40 minutos. É um lugar puramente residencial e a única lojinha de conveniência fica aberta somente até as 21h. Pra ir no mercado temos que andar até a Bloor St (23 minutos, ou pegar o ônibus, ou o street car). Mas, se tivéssemos um carro, tudo no mundo ficaria a, no máximo, uns 15 minutos de distância.
Mapa do TTC
O prédio é familiar e a dona (que nós chamamos ela de Dona Cocota) é bem intrometida. Embora pela lei não sejamos obrigadas a deixá-la entrar em casa sem um aviso de 24 horas de antecedência, ela, vira e mexe, bate na nossa porta. Antes era amigavelmente, trazendo comidinhas e para bater papo, mas depois que tivemos uma conversa sobre o aquecimento do prédio a coisa mudou de figura.
Pois é. O aquecimento é toda uma questão para quem mora em basement e é bom perguntar antes de alugar duas coisas: está incluído no aluguel? Qual a temperatura no inverno?
Porque normalmente o aquecimento está incluído. Pela lei a temperatura do apartamento tem que estar a, no mínimo, 21 graus. Mas o nosso fica a 17. Um porre. Vc acorda, maior frio lá fora, cedo, tudo escuro e seu apto a 17 graus é de morrer. Reclamamos educadamente e a dona teve o desplante de dizer que o Canadá é frio mesmo e que a gente tinha que se acostumar, pois aquecer mais o prédio é muito caro. Na hora ainda não sabíamos da lei, mas fomos atrás. Quando batemos com isso na casa dela, ela comprou um aquecedor. Só fomos conseguir um acordo quando ela se comprometeu a pagar a diferença na conta de luz, porque ela se recusa a aumentar a temperatura do prédio. E, desde então, nada de comidinhas na porta. Além disso, temos que avisar se teremos gente nos visitando por mais que 24 horas e pedir permissão para abrigar aqui em casa. Tipo, quando meu irmão veio de férias pra ficar 10 dias entre Natal e Ano Novo e eu falei com a Dona Cocota, ela disse: “It’s ok, he can come”. Como poderia dizer: "Sorry, I don't like the idea". E, última desvantagem: não podemos sublocar (essa é talvez a pior parte para duas viageiras como nós. Talvez nos mudemos daqui por isso).

Onde queremos morar
Uma amiga britânica que mora aqui há uns 30 anos disse pra D.Mari que, quando você se muda para Toronto, o primeiro bairro em que você chega é decisivo. Se você cair no East Side, vai sempre morar por lá, se cair no West é a mesma coisa. Caímos no West e não queremos sair. (pra entender East e West: a Yonge Street divide a cidade)
Uma vez que não temos mais pressa eu e D.Mari começamos a conhecer os bairros de Toronto devagarinho, procurando os lugares mais bacanas e pesquisando preços. Se decidirmos mudar antes do final do contrato, temos que dar um aviso com 2 meses de antecedência, o que é um saco. E o que dificulta nossa busca.

Little Italy
Bairro fofo. Na verdade toda a College Street é bastante encantadora. Tem comércio, parques, restaurantes, boates, cinemas... uma delicinha. Tem street car 24 horas também. Tem metro. Little Portugal também passa por ali então é tranqüilo comprar produtos brasileiros. Pra completar está do lado do Kensington Market, que é um dos nossos lugares favoritos em Toronto.
Eu e meu brother no Kensington Market
Liberty Village
Bairro meio novo (ta todo em construção), mas que abriga alguns artistas, fica perto das produtoras de vídeo e tem supermercado e academia 24h. É praticamente no centro também.

Queen Street West e arredores
A Queen street é uma paixão. A rua é absolutamente linda, cheia de restaurantes, bares, lojas de arte, decoração, tatoo shops, licour Stores, Comunity Centers, cafés... You name it. Andar na Queen é sempre um prazer e uma descoberta. Além do Street Car 24 horas, é claro, e da proximidade do metrô.
Queen Street West


D.Mari descobrindo uma lojinha de LPs


Tem de tudo na Queen


Roncesvalles Village
Lugarzinho lindo. Aqui perto de casa, do outro lado do High Park tem TUDO o que queríamos pra morar. A rua é uma lindeza, cheia de cafés, livrarias, bares, restaurantes... Jazz toca em todos os lugares. Tem um cineminha barato com cara do grupo Estação. Tem street car fácil. É do lado do High Park e da Lake Shore. Termina na Dundas, onde ficam os negócios brasileiros. Apaixonamos e queremos ir hoje mesmo. Pena que não achamos uma única casa para alugar.


A Roncesvalles é uma fofurinha
Ainda não testamos o cinema, mas que é lindo demais, é.
...