14/04/2014

O tão falado Sistema de Saúde Canadense

Uma introdução


Eu tenho uma lista de coisas que eu gostaria de escrever para este blog e nunca escrevo. Não é exactamente uma lista divertida, mas uma lista de coisas que podem ajudar quem esteja por aqui ou esteja pensando em vir morar nessas terras.
Sistema de Saúde, taxas federais, ajuda financeira (um bolsa família daqui que eu usei e foi de suma importância pra minha vida), mudança na lei de imigração e achando trabalho em Toronto, entre outras coisas, são assuntos que quero, eventualmente, tratar aqui.

Bom, vamos ao ponto.

O Sistema de Saúde Canadense, embora público, é bem diferente do SUS brasileiro. A primeira diferença é que embora exista o Canadian Medicare, o sistema de saúde é varia de província para província. 

Essa diferença engloba como ele é financiado, gerido e o que está incluído no seguro de saúde. De comum entre os seguros de saúde públicos das províncias há: 
- a administração deve ser pública
- deve ter larga abrangência de cobertura
-  universalidade
- acessibilidade (um conceito muito amplo que não entendo bem)

Além do sistema público, há também o privado, que cobre o que fica faltando no outro sistema. Não se preocupe: aqui não é os EUA e ninguém vai deixar de te tratar de um linfoma porque você não tem 200 mil pra pagar, nem você não vai ter que fabricar heroína num trailler no meio do deserto porque não tem dinheiro para pagar seu tratamento. Mas muitas coisas não são cobertas, ou não são cobertas em uma provência, mas são em outra. 

Exemplos de especialidades não cobertas em ontário são:

dentista
oftamologista
fisioterapeuta
quiroprata
psicologo 
acuputurista
fertilização in-vitro
transporte de ambulância quando não é totalmente essencial 
entre outras coisas.


Há excessões. Normalmente crianças e idosos tem cobertura diferenciada. O mesmo ocorre com famílias de baixa renda, mas, como é de se esperar, o atendimento particular é bem melhor que o público.

Pois é, temos um sistema de saúde particular. Eu imagino que para alguns isso soe estranho (pois todo mundo SABE que por aqui a saúde é pública) e para outros seja o mínimo esperado (a galera que pergunta: e se eu quiser pagar por um atendimento melhor?), mas o sistema de saúde particular aqui é bem diferente do que conhecemos no Brasil ou o que ouvimos falar nos EUA.

Ele cobre o que o seguro provincial não cobre. As coisas descritas acima, remédios, atendimento em casa, you name it. Esses seguros podem ser pagos por você ou pela empresa que te contrata (o famoso emprego com benefícios). Quando você vai à clinica de sua escolha ou compra o remédio da prescrição, apresenta o cartão do seguro e pimpa! tá pago.

Mais que isso eu não sei. Aqui só tenho o seguro da província e nada mais.
Tudo o que faço por fora eu pago do bolso. Ano passado gastei uma fortuna em quiroprata. Fazer o que? É a vida.

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E quem está coberto?

Bom, a ideia é que residentes da província estejam cobertos. Para ser considerado residente elegível, pelo menos aqui em Ontário, você deve estar legalmente na província há pelo menos 3 meses antes de pedir seu cartão de saúde. Isso significa que você está pagando os impostos provinciais que financiam o sistema de saúde pública.

Há regras sobre saídas da provincia e do país por longos períodos e é possível perder a cobertura. Mas eu imagino que, voltando e, depois de 3 meses, seja possível recuperá-la.

Quanto aos ilegais eu não sei como funciona. Ano passado passou uma lei que protege ilegais, trabalhadores migrantes e pessoas de passagem e que está causando fúria nos conservadores (os comentários abaixo das notícias sobre o assunto costumam ser pra lá de xenófobas… lembra um pouco os tenebrosos comentários do G1).

E mesmo havendo lei que garanta acesso a serviços essenciais a todos, muitas agências perguntam sobre o status do imigrante e, muitos deles, reportam o mesmo para a polícia e para a imigração. Por isso muita gente tem medo de pedir ajuda (das mais diversas ajudas que você possa imaginar).

Eu achei um site bem bacana que fala sobre o Sistema de Saúde de British Columbia, pelos olhos de quem acabou de chegar. Se você está indo para lá, dá uma olhada.

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No próximo post vou falar de como é navegar pelo sistema de saúde daqui que pode ser bem confuso para quem está chegando.

29/03/2014

Tapioca

Uma das coisas que mais "pega" a gente quando moramos fora é a comida. No começo é legal, tudo novo, comida do mundo inteiro, aquela coisa. Mas logo começamos a sentir falta da nossa boa cozinha brasileira.

Uma das minhas grandes paixões é tapioca. No Rio, todo sábado, eu ia pra feirinha e comia uma de queijo com côco, delicinha. Depois da praia a de queijo com salame! Ou so na manteiguinha mesmo. 

Pra mim é muito difícil viver sem tapioca e eu pedia pros amigos trazerem na mala, quando vinham de visitas.

Pois bem, descobri que é possível comer tapioca em Toronto!

No Kensington Market, em uma daquelas lojas de produtos latinos, achei farinha de tapioca, que, infelizmente, não se parece nem um pouco com a goma de tapioca que a gente costuma comprar na feira ou mercado. É uma farinha MUITO fininha, mas dá pra transformar em tapioca sim!

Essa receita eu ganhei da amiga Ana Cristina e divido com vocês:

Você precisa da farinha, dois potes, água, um garfo e uma peneira boa pra preparar a farinha.






Coloca a farinha num pote e derrama água no meio.




Logo a farinha começa a empedrar. Continua misturando até ficar pedra mesmo.




Depois vai quebrando essa pedra com o garfo.




Peneira a mistura. Precisa usar a munheca um pouco.




A farinha fica mais grossa, obviamente.




Esquenta a frigideira e coloca a farinha lá. Eu prefiro fazer beem fininha, pois embora a massa fique boa, nao é tão gostosa quanto a goma de tapioca.

É importante virar a tapioca para cozinhar os dois lados antes de colocar o recheio.





Coloca o recheio. Essa eu fiz de lanche, mas descobri que é gostoso comer tapioca com qualquer coisa dentro. Outro dia fiz com frango ao curry e cogumelos e ficou uma delícia.








Prontinho!




29/04/2013

ACHIEVEMENT! Limpando as janelas de casa


Ok, você está pensando, como é que alguém se dispõe a escrever um post sobre limpeza de janelas? Bom, a verdade é que pra mim e pra muita gente as janelas sujas das casas são um BIG DEAL e dão muita vergonha. Desde que cheguei nesta nova casa comecei a imaginar como limpar as janelas. Esta semana descobri que as janelas pequenas dos quartos saem na mão, desencaixam simplesmente, e comecei a tirar uma por uma para limpar. Embora eu não consiga fazer o mesmo com as janelas de cima, só o fato de começar a entender como limpar as janelas me deixou imensamente feliz.

Pois que anteontem descobri como limpar as janelas da sala!

A minha sala tem uma das paredes coberta por janelas de lado a lado.  E elas não eram sujas, eram imundas! I-MUN-DAS! Passei meses tentando descobrir como fazer para limpa-las uma vez que elas, obviamente, não desencaixavam na mão como as outras.

Desencaixando janelas - tinha que ter um jeito de limpar!
Descobri que elas têm um sistema em que a parte debaixo da janela desencaixa em cima e abre, como uma alavanca. Então é só lavar dentro e fora, facilmente. Desencaixando a tela anti-insetos (anti-insetos-grandes, porque os pequenos, como mosquitos, fazem a festa) e com um não-sei-como-se-chama-mas-é-muito-útil  com um pano ensaboado preso na ponta alcancei o lado de fora.

Felicidade ao descobrir
A cada janela que eu limpava saia uma água preta... Pensei na minha mãe. Quando éramos crianças (e adolescentes) e ela lavava nossas roupas, sempre dizia: “vocês não iam acreditar como a sujeira deixou a água preta!” Ela tinha um prazer estranho em dizer "água preta". Fazia uma cara de psicopata e ficava repetindo: AGUA PRETAAAA. Eu acho que entendi esse prazer ontem, depois de 4 baldes de água nojenta da poeira de séculos que tirei das janelas.

Agua limpa
Agua PRETA






Antes e depois
Infelizmente o meu não-sei-como-se-chama-mas-é-muito-útil acabou desencaixando do cabo e caiu lá embaixo. Tentei muito resgatá-lo, mas não consegui. E a última tela da última janela também não desencaixou, então o serviço ficou semi-completo, mas o orgulho está lá em cima, de qualquer forma.

Não sei como se chama mas é muito útil lá embaixo, inalcançável... :(

Contei pra amiga Lia que não acreditou no meu sucesso e morreu de inveja. Acho que não sou só eu que morro de vergonha por ter que olhar através de janelas NO-JEN-TAS.

Próximo alvo
Qualquer hora dessas ataco as do escritório. Arght!

12/04/2013

Mudança: parte 2 – saindo do apartamento antigo


Eu dentro do caminhão de mudanças


Eu fiquei de escrever mais sobre mudança, mas acabei soterrada por coisas a fazer e nunca escrevi.
A verdade é que me deu preguiça. Mas essencialmente o que eu queria dizer é que aqui normalmente quem faz a mudança é você. Tipo: você contrata um caminhão, encaixota tudo, busca o caminhão, enche o caminhão e dirige até a nova casa, descarrega tudo e devolve o caminhão.
Fácil? Nem um pouco. O bom é que tivemos alguns amigos para ajudar a fazer tudo isso. Eu nem pensar em dirigir um caminhão. NEM PEN_SAR. Medo total. Mas, inacreditavelmente, você só precisa de uma carteira comum de motorista para fazer isso.

Outra coisa que foi um saco na nossa mudança: a nossa querida LandLady from hell atazanou a nossa vida até DEPOIS do fim da nossa relação. Como?

Primeiro: aqui tem uma coisa chamada data da mudança que é o di que você sai de uma casa e entra na outra. Para mim, esse processo permanece um mistério porque, oficialmente, você saída sua casa atual no último dia do mês e entra na casa nova no primeiro dia do outro mês. E eu sempre fiquei me perguntando: como assim? Você tem que se mudar à meia noite? Ou será que as pessoas dormem no caminhão de um dia para o outro?
Depois de muito perguntar por aí entendi que você combina com o atual landlord e o novo quando você sai e quando você entra. Normalmente as pessoas saem no dia 1o mesmo, de manhã, enquanto a nova entra a tarde... Se tiver alguém mudando para a mesma casa que você está deixando é uma questão de combinar horários. Se a casa nova estiver vaga antes, vc pode mudar antes... bom, são muitas as possibilidade e tudo se resolve no dialogo.
Tentamos dialogar com nossa landlady from hell, mas ela inventou (inventou mesmo) que alguém ia se mudar no dia 1o de manhã. Que tínhamos que sair no dia anterior. Só que a gente não conseguia nem caminhão nem amigos para a judar no dia anterior... é que todo mundo se muda na mesma data então é difícil de reservar tudo. Batemos muita boca com ela até ela aceitar que nós só conseguiríamos sair no fim da manhã. Obviamente que depois descobrimos que não tinha ninguém para entrar. Ainda mais porque, durante nossa estada, ela não mostrou o apartamento para ninguém, então, como eh que alguém ia se comprometer em alugar um apartamento em ver? Pois é.

Segundo: a inspeção. O landlord tem que fazer uma inspeção de saída para ver se vc causou algum dano ao imóvel que tenha que ser pago. Nos estávamos empacotando coisas a uma semana e ela nunca ia lá em casa fazer a tal da inspeção. Marcamos finalmente um horário na sexta-feira, um dia antes da mudança. Ela apareceu lá em casa rapidamente, deu uma bisoiada e saiu dizendo, apenas, que nós tínhamos que limpar o apartamento (já estava limpo) e fechar os buracos na parede. Perguntamos  se ela queria que levássemos a mesa de jantar que ela nos havia emprestado de volta para a garagem, ela disse que não precisava. OK. Eu saí correndo e comprei massa, voltei pra casa, fechei os buracos e continuei a empacotar.


No dia seguinte chegam nossos amigos, busco o caminhão com um deles, começamos a mudança e, quando o caminhão já estava praticamente cheio D. Mari resolve subir até o apto dela para devolver a chave. Eu disse: Não vai não, joga a chave na caixa do correio e a gente vai embora sem mais estresse. Mas D.Mari não queria que ficasse parecendo que nós estávamos fugindo da velha e subiu lá. Pra quê? Desce a velha com um “sobrinho” forte com cara de guarda-costas. Entra na casa que estava brilhando de limpa (graças aos amiguinhos que, antes de sairmos, ainda deram uma última força na faxina. Eles entram e ela diz: “UAU”. Tipo: ta brilhando. Anda até a sala e fala: “vocês não devolveram a mesa para a garagem” D.Mari: claro que não, você disse que não precisava”. A mulher então perde as estribeiras e começa a gritar com mariana que ela foi incrível de emprestar a mesa e que nos somos duas mal educadas e que o “novo inquilino” não tem que tirar a mesa e que é nosso dever e o escambau. Eu tava no caminhão, guardando as últimas coisas, quando volto e vejo a mulher gritando e o sobrinho-segurança, do lado.

Eu chego e falo pra ela que ela é doida, mas que tudo bem, a gente desmonta a merda da mesa e leva. Peguei as ferramentas e, em 5 minutos, estava resolvido. Nisso a Velha entra na cozinha e fala: O plástico da porta do microondas está com bolhas. Eu: como assim? Ela: Esse plástico da porta do microondas não tinha bolhas quando eu aluguei o apartamento para vocês. Eu disse: sim, ele tinha bolhas. Ela: não tinha. Eu: tinha. Ela: não tinha e vocês vão ter que me dar uma porta nova para esse microondas. Aí eu é que perdi as estribeiras. E dei meus berros. Vocie está maluca? Esse microondas está perfeito, limpo e funcionando igualzinho como quando nós alugamos o apartamento e, alem do mais, a inspeção foi feita ontem, por você. Não vamos te dar nenhum dinheiro a mais. Ela: Mas eu não vi o microondas ontem. Eu: problema seu! E fomos, batendo a porta.

UFA!

Daí você pensa que acabou, NE?
Não. Não acaba assim tão fácil.

A mulher nos escreve duas semanas depois. E o que ela diz? Começa dizendo que somos pessoas ótimas apesar do estresse da mudança. Que quer nosso endereço novo para enviar correspondências que cheguem para ela (hu-hum) e que ela olhou mais para o microondas e que na verdade nós quebramos a janela de vidro do microondas que era novinho e que na verdade ela vai mesmo ter que comprar outra janela de vidro e que a janela de vidro custa 182 dólares, mais impostos, mais outros 100 pela Mao de obra e que ao somos pessoas boas e que ela acha que, por isso, nós vamos pagar.

Ficamos TÃO putas com o email que nem sei o que dizer. Conversei com uma amiga, que também é landlady e aluga um apartamento na mesma situação (debaixo da casa dela) e ela me orientou. Disse que se não foi visto na inspeção não pode ser cobrado e que o que ela tava fazendo poderia ser visto como harassment e que nós poderíamos entrar na justiça contra ela.

Na mesma hora eu e D.Mari escrevemos um email DESSE tamanho para ela dizendo, entre outras coisas, que se alguém devia dinheiro para alguém, essa pessoa era ela, pois nós tínhamos dividido as custas de aquecer nossa casa no inverno o que era ilegal. E que ela fosse cuidar da própria vida, que não íamos pagar nada mesmo porque nós não tínhamos quebrado nada e que com 200 dólares ela podia comprar um microondas novo de ultima geração em qualquer loja e que, por ultimo, se ela mandasse mais qualquer email para nós nós iríamos considerar harassment e procurar a justiça.

Depois disso ela, finalmente, nos deixou em paz.
UFA!

23/11/2012

Mudança - parte 01: PROCURANDO APARTAMENTO


Acabei não falando da mudança aqui no bloguinho, mas acho que é válido contar, pois tenho algumas dicas a respeito que poderiam ter me ajudado quando estava procurando apartamento, na saída do apartamento antigo e no transporte dos pertences. Então vou dividir aqui.

Parece fácil, mas é difícil.
Procurar um apartmento é um full time job. No começo é divertido, has depois de uma, duas, três semanas, você para de querer achar um lugar bacana para morar e passa a querer achar QUALQUER lugar ok para morar.



Planilha de planejamento de visitas a apartamentos


A rotina de quem procura casa é mais ou menos assim: Acorda e todos os dias checa os anúncios dos principais sites.

craigslist.ca, Kijiji.ca, viewit.ca, padmapper.com, myhood.ca




Se gostar de alguma coisa, manda email o mais rapidamente possivel e com um texto bacaninha, para que eles gostem de você logo de cara.
Se tiver telefone, liga imediatamente e tenta marcar visita.

Outro método é andar pelas ruas procurando placas de aluga-se e do Viewit, que é super comum por aqui.

Os landlords normalmente marcam um dia específico no qual eles estarão mostrando os apartamentos de uma vez para todos os interessados. Então é normal que você entre em uma casa e lá tenha outras 30 pessoas olhando. As visitas são feitas normalmente em apartamentos ainda habitados, então você tem que imaginar como é aquele espaço vazio. Depois de ver o apartamento você recebe um formulário para preencher com seus dados e entregar para a pessoa que está mostrando o apartamento.

Como são muitas as pessoas que vêem o apartamento ao mesmo tempo, fomos aos poucos desenvolvendo métodos de sermos lembradas e chamar a atenção.
1 - Chegar o mais cedo possível, a pessoa ainda está descansada e sabe quem você é. Com o passar das horas o tumulto acontece e fica mais difícil ser lembrado;
2 - Tenha a mão todos os documentos: identidade, credit history, comprovante de trabalho, SIN number;
3 -  É sempre bom ter uma lista de nomes e telefones de pessoas que podem falar bem de você. Pode ser amigos e familiares, mas o melhor são antigos landlords e chefes;
4 - Se possivel tenha cartas de gente do trabalho ou do seu landlord dizendo que você é bacana, paga tudo em dia, é confiável, essas coisas;
5 - Faça uma cartinha pessoal para seu possível futuro landlord. Diga para ele as razões pelas quais ele deve te escolher. Uma amiga aqui de Toronto me deu essa dica e dá pra ver na cara deles que eles ficam felizes em receber isso. Na nossa carta tinha uma apresentação fofa, falava de como não fumamos, não temos animais de estimação, que gostamos de plantas e não temos problemas em ajudar a tirar o lixo, por exemplo. Como pagamos tudo sempre em dia e, se possível, antes mesmo da data. De como seriamos as melhores pessoas para morar lá. Besteira? É. Mas ajuda. Dá aquele "plus a mais".

Atenção: Há uma estratégia escrota que rola aqui com a qual não concordamos que é oferecer mais dinheiro do que está sendo pedido. Muita gente faz isso e imagino que funcione.

Condomínios de muitos apartamentos podem ser mais fáceis de alugar. Pelo menos se você tiver com os seus documentos em dia. Mas atenção redobrada: boa parte deles está infestada de pragas.
A dica, que já dei antes, é sempre verificar o endereço de qualquer lugar no http://bedbugregistry.com/
Embora o nome sugira um registro de BedBug (percevejo) apenas, ele dá outro tipo de dicas: ratos, baratas e moradores esquisitos.
Há prédios de apartamentos aqui onde tudo é lindo e maravilhoso e outros onde o cara que pede um trocado na esquina para fumar crack será seu vizinho de porta. Por isso, é sempre bom pesquisar o histórico do prédio.




Outra boa ideia é checar o endereço no WalkScore.com onde você pode ver as amenidades próximas ao endereço, como parques, pontos de ônibus, lavanderias, escolas, livrarias, cinemas... ou seja, dá pra saber se é ou não bem localizado ou no fim do mundo. Para você ter uma ideia, o Walk Score do nosso apartamento antigo era 55, o nosso novo é 90 - um paraiso para pessoas caminhantes.





Eu e D.Mari não tivemos sorte.
As casa que vimos eram ou horríveis, ou caras, ou com zilhões de pessoas querendo. Nosso nome nunca era o escolhido.
Perdemos um apartamento porque a data de mudança era um mês antes da nossa data de saída (muita gente não se importa e se muda mesmo tendo que pagar dois alugueis - o que importa é arrumar um lugar), outro porque o dono era croata e todos os concorrentes eram croatas também, outro porque o dono do apartamento ficou indeciso entre nós e outras pessoas e marcou de irmos na casa dele, num domingo as 10pm, para preencher uma ficha, conhecer o filho dele e duas outra inquilinas que iriam ajuda-lo a decidir quem era melhor para viver naquela comunidade. Entre as perguntas do formulário estavam o que costumamos ver a internet e se iríamos usar o jardim, como e quanto. Tipo em horas por semana. Nem preciso dizer que dessa vez fomos nós que saímos correndo.
E os prédios… bom, os que podíamos pagar eram prédios antigos que tinham histórias de horror no BedBugRegistry, então nem fomos visitar.





Rodávamos as ruas um dia, de bicicleta, procurando por anúncios do lado de fora quando vi uns construtores portugueses trabalhando num telhado. Resolvi parar a bike e perguntei: "os senhores sabem de algum apartamento para alugar nas redondezas?" Um deles veio conversar comigo e eu expliquei que estava difícil. Eu já tinha ouvido falar que o jeito mais fácil de procurar é falando com portugueses, pois sempre sabem de quem esteja precisando de inquilinos,  então resolvi arriscar. O moço me falou para procurar os classificados de um jornal chamado "família portuguesa". Que lá sempre tinha anúncio.

Bom, dois dias depois conseguimos um exemplar em uma loja de produtos portugueses e lá havia tipo 4 anúncios de casa.
Uma muito longe.
Uma muito cara.
Um basement.
Um apartamento de três quartos, com tudo incluído, em downtown, por um preço inacreditável. Ligamos.

A moça que nos atendeu disse que infelizmente ia mostrar o apartamento naquele mesmo dia. Mas que se as pessoas nao gostassem do apartamento ela me ligaria de volta.
Duas horas depois me ligou, revoltada: pela 3a vez ela marcava de mostrar e ninguém aparecia nem ligava para avisar que não iria.
Eu disse a ela: posso ir amanhã mesmo, posso levar meu talão de cheques e quaisquer documentos que a senhora precisar. Eu juro que não irei furar. Posso inclusive telefonar para a senhora antes de sair, assim terá a certeza de que não vou desaparecer.


Eu e D.Suzana, vulgo mamãe, na frente de casa

Marcamos e no dia seguinte viemos ver nosso apartamento.
Eu e Mari estávamos já esgotadas de procurar e combinamos: se for ok, pegamos. Se for problemático e tiver solução, pegamos também. Só não pegamos se for uma merda ou se for deprimente.
Chegamos 15 minutos adiantadas, todas arrumadas e cheias de documentos em mãos. Tina nos encontrou na porta. Ficou visivelmente feliz de ver que não furamos.
A entrada do apartamento é meio assustadora: no primeiro andar há um típico "altar português" com fotos de familia e imagens de santos que dá nos nervos, mas subindo as escadas nossos olhos brilharam: o apartamento era lindo! Precisando de ajuste e cheio de coisinhas um pouco estranhas (tipo ele é completamente desnivelado) mas uma gracinha. Na mesma hora dissemos que queríamos. Ela marcou um outro dia para conhecermos o irmão dela, que é a figura responsável por cuidar da casa e fechar o contrato. E garantiu: a casa é vossa.


Vista da minha cama, no outono

QUERIAMOS MORRER DE FELICIDADE!!!

Alguns dias depois, contrato fechado e, desde que nos mudamos em setembro, estamos cada vez mais felizes com a nova casa.
Pena que, em breve, vamos ficar sem ela por alguns meses.
Mas é por uma boa causa: estamos de viagem marcada para a  América Central e Brasil.
Serão três meses de férias do Canadá. Merecidas férias, que essa vida de imigrante é dura.

Depois falo do caminhão de mudança.

12/10/2012

O aborto e a coluna "erótica" do jornal gratuito

Me parece chocante, mas no Brasil o aborto não é só um assunto tabu, é também crime.
O aborto no Brasil só é permitido à mulher em caso de estupro, de risco de vida para a mulher e (novidade) em caso de fetos anencéfalos.
Mesmo nesses três casos, a mulher que quer abortar precisa esperar muito tempo para ter o embrião retirado. Muitas vezes durante essa espera passam-se meses e perde-se a oportunidade ficando a mulher obrigada a continuar a gestão até o fim.
As outra mulheres que não tiveram "a sorte" de estarem nos três casos previstos são obrigadas a recorrer ao aborto ilegal, muitas vezes morrendo em decorrência disso. São milhares de mulheres mortas por não terem direito à escolha, por não terem o direito à gerir seus corpos.

O nome do movimento contra o aborto se chama pró-vida (vida do embrião, não da mulher) e do movimento pró-aborto é pró-escolha.
Antes de mais nada quero dizer que sou pró-escolha e acho um ABSURDO que essa discussão ainda exista no Brasil e que muita gente (incluindo aí parentes meus) comparem uma mulher que realiza um aborto a um criminoso como um ladrão ou um sequestrador ou assassino. Mas é assim no Brasil. Ainda.

Aqui no Canada a coisa é diferente. O aborto é legalizado e, se você for contra o aborto, não faça um.
(assim como se vc for contra o casement gay, não case com um gay. Mas se você quiser casar, pode ir lá no City Hall e fazer a festa mais linda que o dinheiro pode pagar)

Toda quinta feira é distribuído pela meu jornal favorito, a NOW, que é uma publicação gratuita que trata principalmente de cultura, mas também de política e outros assuntos. Na última página fica minha sessão favorita: Savage Love. Dan Savage, o editor da coluna, responde a cartas sobre questões (normalmente) sexuais dos leitores. As questões são as mais variadas e muitas vezes hilárias.

As pessoas perguntam sobre posições sexuais, taras, falam de situações vividas e contas as histórias mais esdruchulas que você pode imaginar.
Mas de uns tempos para cá, notei que cada vez mais a coluna está politizada.

Outro dia, por exemplo, uma leitora escreveu para dizer que ela considera uma perda de tempo sair com qualquer homem que não seja feminista. Ela explicava: todos os homens querem sexo. Eu também quero sexo. Só que quando o homem não é feminista e a gente transa ele automaticamente me chama de vagabunda e nunca mais aparece (pra depois ficar reclamando que não acha mulher para namorar). Quando o homem é feminista a gente transa. depois transa de novo e de novo e… se o negócio engata o namoro é uma delícia.
Hoje uma mulher expõe uma dúvida incomum: ela namora um cara há sete meses. Ele é fofo, atencioso e tudo o mais, mas outro dia, durante uma conversa, ela descobriu que ele é contra o aborto. Embora ele não diga em voz alta que o aborto deveria ser banido, ele disse que acho que o feto é um ser que têm direitos iguais aos dele. A pergunta dela: eles devem terminar? Ela pergunta isso porque depois dessa conversa já não o olha com os mesmos olhos.

Pra você ver: no Canadá um homem dizer para a namorada que é contra o aborto é um "deal breaker". Demonstra que ele não acredita que a mulher têm o direito de escolha sobre o que acontece dentro do próprio corpo. Ser pró-vida aqui é ser machista é diminuir o poder da mulher.

Dan Savage propõe que ela faça um teste: diga para o namorado que está grávida e sente com ele para planejar o resto da vida deles (juntos ou separados, tanto faz). Ele diz que provavelmente o rapaz muda rapidinho de ideia. Mas continua: para ele, mesmo sendo gay, se ele descobrisse que o cara que ele está namorando é contra o aborto, separaria imediatamente dele porque ele é um idiota. E continua: se você é contra o aborto, você deveria ser contra qualquer método anticoncepcional, pois ele também é abortivo. E se você é contra isso… bom, você é, na essência, contra sexo. E porque alguém namoraria um babaca assim?

Palmas para ele e para a sociedade canadense que acreditam na emancipação feminina.

Para ler a coluna dele na íntegra é só clicar aqui.

16/09/2012

Queen West Art Crawl

Estava sozinha em casa em nosso novo apartamento, arrumando que nem doida a bagunça, as caixas, os livros, a louça, quando lembrei que estava acontecendo o Queen West Art Crawl aqui pertinho de casa. Peguei a bolsa e saí correndo para aproveitar o final da tarde.

O Queen West Art Crawl é uma feira de arte ao ar livre que acontece anualmente no Trinity Bellwoods Park desde 2003. O parque é uma delicinha e fica no coração da West Queen West, uma parte da cidade repleta de artistas. Minha nova casa é a 10 minutos andando de lá, o que me deixa muito feliz. Nesse parque acontecem diversas atividades ao longo do ano, incluindo um Farmers Market, que é febre por aqui.

O Art Craw é uma mistura de tendinhas de arte (esculturas, pinturas, fotografias, joias e mais um monte de coisas), traillers e barraquinhas de comida e um festival de música. Perfeito para se passar um dia inteiro.



Tentei cooptar dois ou três amigos para ir comigo na feira, pois D.Mari teve que trabalhar, mas acabei tendo que ir sozinha. Na verdade acabou sendo bem mais prazeiroso. Eu estava na pilha de conversar e comecei a parar nas barraquinhas de artistas cujos trabalhos me chamavam a atenção e a puxar papo sempre que eu notava que eles não estavam "atendendo a clientes". Foi uma experiência super bacana.

Minha primeira parada foi na barraquinha de Candace Osborne, uma moça super fofinha que eu e D.Mari havíamos conhecido no ano passado, na mesma feira. Daquela vez o trabalho dela nos havia chamado a atenção por nos lembrar da série Rabbits, do David Lynch. Ela lembrava não exatamente de mim, mas da sugestão do filme e contou que adorou assistir a Rabbits.


Conversamos rapidamente e perguntei a ela de onde vinham essas cabecas de animais e ela me explicou que associava cada animal a uma personalidade e que gostava de brincar com as interações entre os personagens que criava.

Andando mais um pouco notei uma barraquinha cheia de robozinhos fofos. Tenho uma certa tara por robôs e monstros e não resisti a dar uma paradinha para conversar com o moço simpático sentado num cantinho.

Andrew Duff se sentia preso à uma realidade imutável em seu trabalho. Como se fosse parte da engrenagem de uma grande fábrica. Começou a desenhar robôs agressivos e, depois de muito desenhá-los, começou a usá-los para sonhar com uma libertação.



O hobbie acabou tomando uma dimenção muito maior do que a esperada e, embora ele não tenha largado o emprego, conseguiu chegar a melhores termos com ele e hoje se sente mais feliz.

Em seguida notei uns desenhos bem interessantes de coffe shops de Toronto. Os coffe shops estão para Toronto como os bares pé sujo estão para o Rio. Com a diferença de que eles não estão fechando e se transformando em outra coisa. Como eu mesma trabalhei em uma uma cafeteria, infelzimente de rede, os desenhos logo me chamaram a atenção.



Assim que tive uma oportunidade puxei papo com o artista, que estava cercado de gente o tempo todo.

Will Wong me contou que não aguentava mais seu "day job" e um dia resolveu pedir demissão. Sem dinheiro e morando num apartamento super frio passava as tardes em cafés da cidade, desenhando os cenários que via para passar o tempo. Quando juntou 30 daqueles desenhos decidiu que podia fazer uma exposição daquilo como uma "série"e desenhou outros 100 cafés. Como resultado ele tem um retrato muito bom da personalidade da cidade e uma imensa aversão a cafés. Me contou que lembra de tudo que acontecia à sua volta enquanto desenhava. Me contou algumas histórias. E me disse que só o cheiro do café o lembrava desse momento difícil da vida e por isso evitava passar sequer perto. Rimos um pouco e fui explorar mais da feira.

Andando mais um pouco notei uma placa que dizia "artista eclética" e logo entrei na barraquinha. Encontrei-a cheia de bordados, colchas de retalhos, vidros decorados e jóias. No balcão, uma moça super simpática me encarava. Puxei papo.



Katie McLellan era webmaster. Passava a maior parte de seu dia num escritório fingindo estar ocupada, porque seu trabalho não demandava muito dela. Depois de pagar pelos estudos, vendeu tudo e passou um ano viajando. Na volta resolveu que iria trabalhar com roupas e pdiu para a mãe ensina-la a costurar. A mãe disse que, antes de aprender a fazer roupas ela deveria aprender a fazer painéis simples de tecidos, o que ela achou que seria "boring". Mas depois de fazer dois ou três se apaixonou e a partir daí expandiu os conhecimentos e agora faz todo tipo de coisa e vive de arte. Quando eu disse "você está vivendo o sonho"ela sorriu e concordou. Disse que espera que dure.

Andando mais um pouco tive que parar em ernte de umas imagens de paraquedas que me chamaram imediatamente a atenção. A conversa com a artista foi breve, pois muita gente parava ali para conversar e comprar e eu não queria ficar no caminho.

Allyson Payne usa cera de vela em seus quadros. As texturas são incríveis e fiquei muito feliz com ela me deixar tocá-los. A série Parachutes me deixou emocionada. Ela me falou que pensava neles como escapes, mas também em como as perspectivas mudam quando estamos distantes e quando nos aproximamos de novas realidade.




Minha última parada foi no estande de Julia Hepburn. Eu tinha passado por ele diversas vezes, mas não tinha encontrado a artista lá e estava excitada para conhecê-la. Seu trabalho se destacava na feira pela estranheza e beleza das imagens. Eram miniaturas de contos de fadas em caixas, dentro de objetos, imagens muito dark e inusitadas.



Finalmente vi uma menina sentada ao lado das esculturas. Uma moça novinha e aparentemente muito tímida estava lá sentada num canto olhando as pessoas que observavam suas obras. Me aproximei e elogiei seu trabalho e pedi que ela me falasse um pouco sobre ele. Ela ficou super feliz de me falar de onde vinha a inspiração para cada uma de suas obras. Basicamente ela brinca com lendas e histórias de fadas e as usa para criar as suas próprias. Relutou em me falar da inspiração por tras deles individualmente pois acha que cada um deve interpretar a sua maneira. "Arte é tipo isso mesmo, né?"eu disse. Ela abriu um sorriso e falou: "tá bom, vou te contar o que me inspirou nessa aqui" e depois fomos uma a uma cobrindo cada uma das obras. Uma delicia o papo e a moça uma fofinha.

Fechou minha tarde maravilhosamente.

E nada como voltar pra casa na luz do outono que, mesmo que não esteja oficialmente por aqui, já bate à porta.



23/08/2012

1 ano em Toronto

Faz um ano que chegamos com 4 malas em um hotel mequetrefe aqui de Toronto.
Viemos de NY sem saber muito o que esperar da cidade. Depois da nossa primeira tentativa frustrada de morar em Vancouver, não sabíamos o que esperar daqui. Achávamos que as coisas poderiam ser melhores do que lá. Achávamos que teríamos mais oportunidades. Mas ó isso.
Na chegada, logo ficamos com medo. O avião fez um contorno pelo Lago Ontário e achamos a cidade pequena, cheia de casas, sem muitos edifícios. O hotel era numa parte muito feia do centro, do lado de ponto de drogados e hospícios. De cara, tivemos aquele arrepio de que não iríamos gostar de nada.
Mas em poucos dias achamos uma casinha bem bonitinha, um pouco afastada, mas bem bacana (essa da qual eu reclamo repetidamente por conta da landlady que é dos infernos). Logo começamos um curso para imigrantes de inglês e atendimento ao cliente. Achamos que isso poderia nos ajudar a achar um emprego temporário e nos ocupar nos primeiros tempos.
O curso era horrível e eu larguei no meio. Mariana seguiu mais um pouco, mas descobriu que isso de atendimento ao cliente não é mesmo para ela.
Eu consegui um emprego de barista no second cup, onde achei que fosse ficar no máximo 4 meses e acabei ficando 7. Mariana pegou um trampinho numa produtora picareta. Coisas que nos ajudaram a passar os primeiros meses e a fazer amigos.
No começo a grana apertou e pedimos ajuda ao governo. Ele ajudou! Incrível! A mesadinha que ganhamos foi suficiente para pagar o aluguel e nos proporcionou paz de espírito. Agora devemos sair dessa ajuda. Segundo nossa “case worker”, somos um caso de sucesso como poucos.
Fizemos cursos na nossa área num lugar bacana chamado LIFT e acabamos conhecendo mais gente. Com a ajuda dessas pessoas e de muita social que andamos fazendo, fomos conseguindo nossos primeiros trabalhinhos na área. No momento, nós duas estamos trabalhando em produtoras grandes. As duas como assistentes e no horário noturno, mas felizes de ver que é possível entrar no mercado de trabalho aqui. Mesmo com nossas muitas deficiências lingüísticas e com ainda poucos conhecidos na cidade. E mesmo tendo que nos adaptar a outras formas de trabalho e a um programa novo (o AVID).
Semana que vem, mais uma revolução: Sairemos do nosso atual apartamento em Swansea e iremos morar no centro, mais precisamente no Entretaiment District, bem pertinho de todas as produtoras. Estamos excitadas e estressadas que mudança aqui se mostrou todo um desafio à parte, mas falarei disso em outro post.
Esse daqui é mesmo para comemorar como a vida passa rápido e como rapidamente nos apaixonamos pela nossa nova cidade.

1 ano de Toronto: Parabéns pra nós.

10/07/2012

O nervoso dos brasileiros


Desde sempre ouvia meus amigos e conhecidos viajados falando mal de brasileiros no exterior. Por algum motivo maluco eles sempre falavam que evitavam esse e aquele lugares porque "era cheio de brasileiro" e eu sentia nesse tipo de comentário um certo complexo de superioridade em relação a outros brasileiros. Como se a pessoa que contasse a história se achasse melhor, mais europeu, mais chique, que a ralé do nosso país, e isso me causava profunda irritação.

Não é que, de repente, agora com quase um ano morando fora, começo a adotar um certo horror de encontrar conterrâneos na rua?
Será que estou me tornando uma besta?

A verdade é que brasileiro é um povo cheio de mania chata e eu nunca tinha percebido. As vezes dá nervoso, às vezes vergonha.
Antes que vocês me odeiem deixa eu me explicar:

Você está andando por um parque. Há uma placa: "Não alimente os animais" e tem uma galerinha às gargalhadas dando tostitos para os esquilos. Advinha de onde eles são?

Você vai ao zoológico. Há um aquário com cobras. De repente alguém começa a bater no vidro pra ver se a cobra reagem. Advinha de que país esse ser humano é?

No museu, que familia é aquela tirando fotos com flash de obras de arte de mil anos de idade?

Mas nem era disso que eu estava reclamando, até porque, embora muitas vezes eu veja esse tipo de comportamento estúpido em brasileiros, nós não somos os únicos.
O que me irrita mesmo é essa mania de brasileiro de achar que, só porque o ser humano ao lado é brasileiro também, ele tem que te tratar como se vocês fossem amigos de vida inteira.

Se você está no ônibus viajando e conversando em português e algum outro brasileiro te escutar, grandes chances de ele mudar de lugar pra ficar perto e puxar papo e interromper qualquer assunto.

Se você está ao celular na rua e um brasileiro te escutar, ele te segue, espera você desligar e puxa assunto, inclusive quer saber com quem você estava falando (outro brasileiro aqui? sério?)

Se você está numa reunião de trabalho num restaurante e fala, em inglês mesmo, algo sobre o Brasil, o brasileiro na mesa ao lado vai perguntar se vc é brasileiro, vai querer dicas de como faz pra imigrar pro Canadá. como trazer a familia,  como arruma trabalho e vai achar que é sua obrigação convidá-lo a sentar na mesa com você.

Se você der informação na rua para um brasileiro ele vai querer teu facebook.

Então eu, nesse momento ha 1 ano fora, faço de tudo para evitar que brasileiros na rua.


Se ouço português no ônibus, passo a falar bem baixinho, pra que eles não me percebam. Se der, mudo de lugar.
Se vejo um na rua, corro pro outro lado.
Vou vendo aquelas camisas verde e amarelas passando (pq brasileiro adora camisa verde e amarela? haja paciência) e vou desviando o quanto posso.
Quando não tem como escapar, falo inglês, puxo num sotaque francês (ou latino, ou qq coisa), mudo de assunto e torço para que eles não percebam que viemos do mesmo país, porque senão…

Não sei se tenho mais vergonha deles ou de mim.



Outro dia um amigo (brasileiro também) tava me explicando o que é vergonha.

Ele disse: Bárbara, você sabe o que é vergonha? Vergonha é você morar um tempo fora, ir para o Rio de Janeiro de férias, sentar num buteco, pedir um cafézinho e, quando o moço te tras o cafézinho você diz: "Ténk iul". Isso sim é que é vergonha.



É. Acho que ele tem razão.