28/08/2014

The Massassauga Provincial Park

Ou, o meu primeiro camping canadense "de verdade"

Em 2010 eu, D. Mari e nosso casal de amigos ingleses fizemos nosso primeiro acampamento no Canadá. Viajamos pela ilha de Vancouver de carro e foi bem legal. Mas a barraca funcionava apenas como lugar pra dormir e não foi uma real experiência de camping.

Esse ano, fomos acampar com um casal de amigos há mais ou menos um mês atrás. Como resolvemos de última hora e era feriado, acabamos parando em um parque meio chimfrim chamado Earl Rowe. Digo chimfrim porque lá se pratica o que eles chama aqui de Glamping (acampamento chique)… Você vai de carro, tem tudo à sua disposição, inclusive luz elétrica em alguns lugares, tem piscina pública, seguranças, carrinho de fast food… E pra completar o parque era mínimo, tinha uma trilhazinha boba pra fazer, um lago sujo que dava pra dar uma remadinha em barquinhos e pedalinhos alugados e só.
Mas tudo bem, comemos muito, rimos com meu amigo Jason (um excelente contador de piadas) à luz da fogueira, comemos os deliciosos hamburgueres da namorada dele, compramos un estilingue e brincamos de derrumar latinhas (depois descobrimos que é proibido) e voltamos pra casa.

Mas nós estávamos loucas por um camping mais selvagem, em algum lugar incrível. Desde o inverno eu estava cantando minha amiga Chantale que acampa sempre para me levar para um camping de canoa (ela tem uma). Definimos a data e iríamos em 4 pessoas, eu , ela, D. Mari e uma amiga brasileira que disse estar doida para acampar. 

Infelizmente chegando mais perto da data, essa amiga desistiu de ir e, pra completar, D. Mari estava bem sufocada no trabalho e acabou achando melhor nem procurar outra parceria muito (esse tipo de camping precisa ser feito em duplas). Então fomos apenas eu e Chantale.

Fiquei encarregada de preparar a comida dos cafés da manhã e de um almoço. Ela ficou encarregada de outro almoço e das jantas. Alugamos um carro e ela passou cedo na minha casa para me buscar para nossa aventura no The Massassauga Provincial Park

1o DIA

Obviamente reservamos os camping sites muito em cima (de novo, pelo menos não era feriado), não conseguimos reservar nenhum muito perto do ponto de partida. O que conseguimos estava, pela descrição das pessoas que trabalham no parque, há 6 horas de remo do ponto de partida. Por conta disso tínhamos que sair correndo no sábado de manhã e começar nossa viagem tentando ganhar o máximo de tempo.

Chantale alugou o carro às 8 horas da matina, quando a locadora abria. Me buscou em casa, fomos na casa de um amigo dela que estava com seu barco (ela tem um barco desmontável de lona - foda) e pegamos estrada. 

No caminho, milhares de obras e desvios nos atrasaram um pouco. Chantale estava cansada e paramos para um café na estrada, onde comemos também um monte de besteira: hamburguer, muffings, coca cola e afins.

Contudo chegamos na administração do parque em uma hora boa. Pagamos o estacionamento e pegamos nossas licensas (sempre podemos ser questionadas se pagamos ou nao pelos camping sites) e seguimos para o ponto de partida. Lá montamos o barco, estacionamos o carro e, sob olhares de vários curiosos (TODO mundo quer saber informações sobre o barco de borracha - quanto pesa, como monta, se é frágil, quanto custa, de que é feito…), carregamos tudo dentro e, na hora da saída, ela me perguntou se eu queria ficar na frente ou atrás. Como ando com as costas ruins e atrás se faz menos esforço físico, pedi para ficar atrás. Meu trabalho seria dar a direção do barco, enquanto ela faria a navegação. 

Bom, se posso dizer uma coisa é que falhei miseravelmente. Eu não era capaz de fazer uma linha reta. Ou mesmo uma curva suave. Cara vez que eu tocava com o remo na água a gente virava 180 graus. Já eram duas da tarde e anoitece às 8pm, entao não tínhamos tempo a perder. Depois que fizemos a primeira portage, Chantale assumiu a direção.

A portage é quando você tem que atravessar uma trilha carregando tudo nas costas até o próximo lago. Então primeiro você carrega mochilas, comida, remo etc., depois o bote em si e os coletes salva vidas. Normalmente uma pessoa sozinha é capaz de carregar a canoa, mas como somos duas fracotas, dividimos o peso entre nós. Depois de minha primeira experiência decidi que eu ODEIO portages. 

Eu fiquei impressionada com o espelho d'água

Remamos sem parar para descansar e, para nosso espanto, em menos de 4 horas chegamos na nossa primeira parada. 

Primeira função: achar uma boa árvore onde penduraríamos nossa comida. Segunda função, catar lenha. Depois de montarmos a barraca e Chantale foi fazer o jantar enquanto eu procurava mais gravetos e troncos secos. Assistimos ao por do sol enquanto comíamos um delicioso nhoque ao pesto e salada. Em seguida tínhamos que lavar a louça e não havia nenhum lugar próximo onde pudéssemos fazer isso sem deixar nosso camping com cheiro "atraente" de comida. Por isso, entramos na canoa e fomos lavar a louça no meio da água. Lavar sem sabão, que sabão não pode. Aproveitamos para encher nossas garrafas d'agua usando o filtro massa da minha amiga.

Primeiro jantar
Isso feito, embalamos o restante da comida e tudo que fosse perfumado (desodorante,  pasta de dente) numa bolsa de borracha e penduramos na árvore. Deixamos nossas escovas com pasta sobre a mesa, acendemos a fogueira, queimamos restos de comida  e preparamos marshmallow para nossos s'mores. Olha, eu não gosto de marshmallow, mas a verdade é que faz sentido ficar em frente a fogueira, com o troço pendurado no gravetinho. É divertido e ficou boa a combinação com chocolate e biscoito. Terminado isso, escovamos os dentes na fogueira (pra não deixar nenhum odor) e entramos na barraca para escapar dos mosquitos.

No momento em que entramos, começamos a ouvir lobos uivando ao longe. Fiquei bem nervosa e agarrei o braço da Chantale. Ela me disse pra acalmar que os lobos estavam longe, do outro lado da água. Mas os uivados começaram a ficar cada vez mais frequentes e a chegar cada vez mais perto. Eu tremi. Ela me disse que não estava preocupada, que lobos não comem gente, que eles têm medo da gente, que estava tudo bem.

Tentei relaxar. Lembrei de avisar:

- Aliás, Chantale, preciso te dizer: eu ronco.

Ela olhou pra mim e deu a resposta mais absurda de todas:

- You know what? Thats actually great!

- What do you mean, its great?

- If you are snoring all animals will know that we are here and will probably avoid this area. They will be afraid of you. Please snore! as strong as you can!

Eu ri, claro, e, eventualmente, dormi (mas não ronquei).

Quando chegou umas 4 da manhã, acordei nervosa. Lá fora, silêncio total. Eu precisava fazer xixi e não queria acordar a amiga. Fiquei um tempo escutando o mundo, no escuro, criando coragem para ir lá fora. Quando finalmente abri o zíper da barraca, ela acordou. 

- Você está saindo da barraca?

- Preciso fazer xixi e não queria te acordar.

- Você tem que me acordar. Eu te acordaria pra ir fazer xixi comigo! 

E rapidamente levantou.
Depois do xixi olhamos pro céu e a noite estava para lá de estrelada. Sentamos numa pedra, à beira da água e ficamos mais ou menos uma hora olhando as estrelas, até que o frio venceu e voltamos para a barraca.


DIA 2

Abrimos o olho às 10 da manhã. Acho que nunca dormi até tão tarde acampando. 
Fui preparar o café da manhã: café com leite, maçã e pão de queijo de frigideira (obrigada mãe priscila do quintalzinho pela receita!). Quando já estou no final do processo, Chantale me pergunta se eu havia adicionado um ovo cru na receita.

- Sim, leva um ovo.

- Barbara! Ovos não podem ficar fora da geladeira!

- Claro que podem! por até uma semana! Eu testei o ovo, inclusive, e não está ruim.

Pão de queijo levemente queimado
Daí ela balançou a cabeça e me contou que na América do Norte os ovos são lavados nas empresas por "higiene" e que dessa forma eles tiram a capa de proteção do ovo e ele fica desprotegido contra bactérias. Mas ela achava que sim, tudo bem a gente comer o pão de queijo da primeira vez, mas não nos outros dias. Fervemos o outro ovo cru que eu tinha e fiquei feliz de ter levado outra opção: tapioca.

Enquanto comíamos, passaram vários barquinhos com senhorinhas. Todo mundo se cumprimenta, pergunta do camping, fala de comida, do tempo, do parque. Small talk, sabe como é. As senhorinhas perguntaram se já estávamos almoçando e quando respondemos que ainda estávamos tomando café elas riram muito da nossa cara. Meio dia, depois de queimar restos de comida e lavar a louça, partimos.
Chantale filtrando água
Dessa vez (e pelo resto da viagem) eu fiquei atrás, dando a direção do barco. Chantale me disse que é o único jeito de aprender. Ela foi me dando dica atrás de dica e, aos poucos, comecei a me sentir mais confortável. 

Não estávamos com pressa, então paramos logo depois para nadar. No dia anterior não tivemos esse tempo e a água na frente do primeiro camping era cheia de algas, então não tomamos banho e nos sentíamos nojentas. Nadamos horas na primeira parada. Voltamos para o barco e 40 minutos depois paramos de novo para almoçar e nadar. Quando olhamos o relógio já eram quase 4 da tarde e tínhamos praticamente o caminho inteiro pela frente.

Começamos a remar o mais rápido que podíamos. Nosso percurso saia do parque e passava por ilhas particulares, onde as pessoas ricas têm barcos a motor, e não existe nenhuma sinalização para ajudar na navegação. Paramos em uma ilha para pedir informação. Chantale fazia o melhor para evitar que nos perdêssemos. Eu fazia o meu melhor para direcionar o barco, mas, vez por outra ela gritava:

- Where are you going, Barbara?!

E eu notava que tinha me perdido completamente e estava mirando aleatoriamente na baía.

- I have no idea. Do you?

- Maybe.

Chegada no nosso segundo acampamento

Depois de outras quase 3 horas chegamos desse pequeno retiro lindo lindo. Já estava bem tarde, a luz caindo. A água escura e parada fazia o lugar parecer um espelho gigante. Havia pessoas acampadas a menos de um quilômetro de nós. Ao chegar, não tínhamos nem um segundo a perder:

Troninho
- Achamos uma árvore boa para pendurar a comida
- Chantale foi fazer o jantar
- Eu fui armar a barraca e catar lenha
- comemos, lavamos a louça em uma praia próxima
- penduramos a comida
- fomos ao banheiro (finalmente!)
- acendemos o fogo
- queimamos os restos de comida (o que demorou horas, pois comemos sopa)
- fizemos s'mores
- escovamos os dentes
- fomos devoradas por mosquitos
- entramos na barraca

Foi uma noite corrida.
Barraca na floresta
A barraca teve que ser armada dentro da floresta e a gente não estava muito confortável com isso, mas como a noite estava silenciosa e acabamos dormindo cedo. Combinamos de acordar para ver o amanhecer. 


DIA 3


Acordamos com o despertador (que indecência) para ver o nascer do sol em frente à praia. Saímos de sacos de dormir (não pelo frio, mas pelos mosquitos) e ficamos sentadas na mesa de pic nic vendo o espetáculo. Azul para rosa para laranja para amarelo para o dia claro. Chantale levantou num pulo e disse: você vai fazer o café agora ou depois? Agora, eu respondi.

Ela desapareceu na floresta e voltou com a mochila de comida.

- Ok, vou voltar pra dormir. Me avisa quando tiver pronto.

E foi-se.

Fiquei lá, sozinha, respirando um ar maravilhoso e sendo devorada por mosquitos e moscas. As moscas canadenses são seres do inferno. Tiram lascas de você. Graças aos céus apenas uma me pegou. Fiz chocolate quente e tapioca de queijo com manteiga e ervas do meu jardim, cortei maçãs e a chamei.

Depois de terminarmos eu entendi que havia, novamente, falhado miseravelmente na minha escolha de café da manhã. 
Tapioca faz sujeira, não tem jeito. E eu tive que catar todos os farelinhos antes de irmos embora novamente.

Dessa vez, não queríamos perder tempo. Saimos do acampamento às 8:30, remamos rapidamente até a nossa portage do dia. E que portage! quase 800 metros de pura lama e mosquitos. E nesse dia, por algum motivo, estávamos nos sentido muito cansadas. Sofremos para fazer o caminho enquanto cruzávamos com adolescentes de mais ou menos 12 anos, carragando canoas E mochilas maiores que elas nas costas. Nos sentimos um pouco ridículas, mas #fazeroque? Logo depois da portage havia um camping vazio e paramos para almoçar e nos refrescar. 

O número do camping é 29. Se um dia alguém que leu isso for acampar em Massassauga saiba que esse camping é foda. Tem pedra para pular em um poço d`água, o lugar para colocar as barracas é ótimo e elevado e fora da floresta, uma vista linda, cheio de madeira em volta, ou seja, genial. Comemos, eu subi numa árvore para ver a vista, fomos nadar e logo ficamos preocupadas: melhor seguir viagem de uma vez.

Durante o percurso encontramos todo tipo de viajante: pais com filhos, pessoas idosas, gente sozinha, gente acompanhada de cachorro. Ao virarmos uma curva vimos uma velhinha olhar pra gente e nadar em desespero em direção à praia, gritando alguma coisa. Um segundo depois reparamos que havia um camping ali cheio de mulheres na faixa dos 70 anos, TODAS PELADAS! E elas todas corriam para agarrar suas toalhas antes que as víssemos. Com excessão de uma que, apoiada em uma árvore, ria da cara das outras. 

Vista de cima da árvore
Remamos mais um pouco e, qual não foi nossa surpresa quando, às duas da tarde, chegamos no nosso último site?

E vou te dizer, que site!
Numero 19, se alguém algum dia for lá.
Era básicamente parecido com o site onde comemos nosso almoço, só que menor, mais isolado e sem muita madeira.
Enquanto Chantale armava a barraca eu achei uma arvore ótima não muito longe dali.
Em questão de 20 minutos estávamos com tudo pronto e fomos nadar.

Tradição canadense

Chantale me provocou dizendo que era um costume canadense vestir o salva-vidas como se fosse fralda para nadar no lago, o que, obviamante era historinha, mas fizemos isso e ficamos boiando horas. Atravessamos o lago prum lado e para o outro e vez por outra alguma canoa cruzava com a gente e ria da nossa cara. 

Ainda eram umas 5 da tarde quando cozinhamos nosso jantar: macarrão com legumes. Como não havia lenha, não podíamos queimar nada então guardamos os restos na mochila de comida. Pelo mesmo motivo, não escovamos os dentes. Eu tinha tic tacs, então tudo bem. Então nos deitamos em uma pedra e nos conectamos com a natureza. A conexão foi tanta que nem teve mosquitos nesse dia. À nossa volta, esquilinhos, abelhas,  lagartixas de rabo azul e mini sapos eram todos os animais que podíamos ver e ouvir. Resolvemos jogar carteado um pouco e, com o dia ainda claro, fomos dormir. Não eram nem 8 da noite. 

Vista de dentro da barraca
Entramos na barraca que foi armada sem cobertura contra a chuva. A gente tinha passado calor nas noites anteriores e não havia menor indicio de chuva, então armamos assim. 
De dentro da barraca pude ver o dia cair lentamente. Dormi como um anjo. Acordei um segundinho durante a noite e vi o céu estrelado de dentro da barraca. Acordamos juntas no amanhecer. 

Vou te dizer que ESSE DIA FOI FODA.

4o DIA

Acordamos vagarosamente. Comemos o café da manha: tapioca, nozes, ovo, cafe com leite, chocolate e maçãs, tiramos fotos do camping, desarmamos tudo com calma e, mais ou menos às 9:30, já estávamos prontas para partir.

Remamos lentamente, pois não queríamos chegar a lugar algum. Era nosso último dia. As duas tristes. Não queríamos voltar.

Mansão
Preparando o café da manhã
Quem não tem copo, bebe café na panela
Tapioca

Voltando, últimos minutos
Chantale elogiou minha habilidade na traseira do barco "it's like night and day from the first day to now. I feel like you are really in control. You doing straight lines and all." E eu inflei meu ego e aceitei o elogio. Tínhamos nossa última portage para fazer e na primera perna cruzamos com uma mulher carregando o barco com um cachorrinho a tira-colo. Do outro lado descobrimos que ela tinha tanta coisa que teria que fazer umas 8 viagens até levar tudo. Então esperamos ela voltar e ajudamos ela carregar algumas coisas. Antes de nos despedirmos dela e pegarmos nosso barco para fazer a última perna da trilha, ela nos contou uma história sobre como encontrou com um urso, 15 anos antes, em Algonquin.

Ela estava acampando com a namorada e elas tinham cometido vários pequenos erros: deixado o fogo morrer antes da comida estar totalmente carbonizada, pendurado a sacola não muito longe da tenda e ligado o foda-se. 

Elas estavam dormindo quando de repente o urso entra dentro da capa de chuva da barraca e levanta, desarmando parte da estrutura. Elas acordam panicadas e ouvem o urso ir até a arvore com a comida, escalar a árvore e tentar derrubar a sacola, sem sucesso, depois ele ia ate a fogueira extinta e tentava cavucar por lá, voltava em seguida para a barraca e ficava cheirando tudo em volta e repetia o mesmo movimento de novo e de novo. Elas ficaram ouvindo o urso no escuro por o que pareceu uma hora e então chegaram à conclusão de que ele não iria embora. Pelo contrário, ele sabia que havia comida ali e estava ficando frustrado. Então elas resolveram fazer o que todos dizem para você não fazer: correr para a água, na escuridão total. Esperaram o urso subir na árvore e abriram o ziper para…. ver um lobo passando ali bem na hora. Elas entraram em pânico e correram como duas loucas, colocaram o barco na água e remaram como se não houvesse amanhã. 

- Mas ursos podem nadar, vocês achavam que podiam ganhar a corrida? perguntou a Chantale.

- Com o nível de adrenalina que estava na gente, a gente ganhava a corrida de urso, tubarão, avião, qualquer coisa.

Então elas acharam uma pedra próxima e pararam para descansar. Da praia, o urso olhava para elas com cara de "não entendi qual era o problema dessas duas". Elas aproveitaram o momento e fizeram cocô.

- É verdade, disse a Chantale. Uma vez eu fiquei com medo de umas raccoons e me caguei nas calças.

- Pois é. A gente também.


Depois de ouvir essa história contagiante, seguimos nosso caminho. Quando já estávamos vendo o local onde deixamos o carro, resolvemos dar uma última parada em uma pedrinha próxima e almoçar. Eu dei um último mergulho. 10 minutos depois já estavamos desarmando a canoa, sob olhares curiosos e perguntadeiros. Entramos no carro e voltamos para Toronto.

último mergulho

Não sem antes parar na Wendy's e tomar um sorvete engordativo e comemorativo. Com batatas fritas. E katchup.

Nosso percurso, começando em amarelo

30/07/2014

Um outro jeito de pensar

Desde que cheguei em Toronto comecei a notar que ao mesmo tempo que na América do Norte há uma cultura ENORME em torno do consumo de todo tipo de bens, há uma crescente turma de "gente alternativa" que acredita em dividir, ao invés de ter, em trocar ao invés de comprar, em dar ao invés de vender, em voluntariar ao invés de trabalhar.

Minha introdução a esse mundo veio através da minha amiga Rosa, pessoa incrível, cheia de conhecimentos e de vida e que vive dura porque… "meus hobbies tomam tempo demais".

Os hobbies dela giram em torno de aprender sobre agricultura urbana, permacultura, comida orgânica e afins. Por causa desses "hobbies" ela está sempre se voluntariado em jardins comunitários, fazendo woofing por aih e ensinando outras pessoas a plantar. 
E foi ela que me deu uma batia força para ter uma horta orgânica atrás de casa. 

Outro dia um amigo me convidou para um evento cujo nome me chamou muito a atenção: Share Fest TO (festa da troca de Toronto). Não tive dúvidas e, depois do trabalho peguei a bike e sai em disparada para ver do que se tratava.

Cada mesa com um ou dois expositores

O evento acontecia no CSI - Centre for Social Innovation que é um espaço comunitário dividido entre freelancers, micro empresas e projectos embrionários por períodos "curtos" de tempo. Chegando lá na recepção uma menina sorridente me pediu para escrever num adesivo meu nome e alguma coisa que eu compartilhe com outros. Eu escrevi: meus vegetais. Um homem ao meu lado escreveu: conhecimento. Outro: alegria. E entramos.

Na sala, abarrotada de gente, fileiras de mesas com gente sorridente atras delas que explicavam as ideias, projectos e conceitos mais geniais do mundo. Tentei ir em todas as mesas, mas não tive como. Era muita gente e eu queria conversar e conhecer os projetos mais a fundo do que simplesmente pegar folhetos. Aqui, algumas das ideias geniais a que tive acesso.
Eu já havia ouvido falar neles e estou doida para ir conhecer. Em resumo eles têm um espaço físico onde oferecem workshops sobre marcenaria, 3d printing e outras cositas mais. Interessados podem fazer esses workshops, parar uma mensalidade para usar o espaço e as ferramentas a qualquer momento ou pagar uma anuidade para poder pegar emprestado ferramentas que vão de machados à serras eléctricas. A ideia é que não precisamos todos ter furadeiras e planificadoras em casa se podemos pegar emprestado e fazer nossos projectos. Sempre me lembro que minha mãe, quando sindica do prédio onde morávamos, tentou implantar algo assim e comprou ferramentas que seriam de uso comum dos condóminos… o que infelizmente não deu certo pois as ferramentas começaram a sumir. Uma pena, porque… pra que ter se podemos usar sem gastar e sem gerar lixo?

Toronto Kitchen Library

A ideia é a mesma e o projeto é incubado pela Toronto Tool Library.



Essa galera têm como meta a distribuição livre de sementes orgânicas na cidade. A ideia é se unir às bibliotecas da cidade e colocar nas estantes, ao lado dos livros, saquinhos de sementes de todos os tipos. interessados simplesmente pegam e levam pra casa. Qualquer um pode participar tanto pegando as sementes quanto doando as mesmas. Conversei algum tempo com essa galera e eles me deram a dica de como preservar as sementes das minhas abobrinhas. E estou fazendo meu primeiro teste.

Essa galera está em tudo quanto é canto
divulgando a ideia e distribuindo sementes


A ideia é simples: ao invés de jogar fora utensílios domésticos que não funcionam mais… por que não conserta-los? E ainda mais de graça? Pois bem, voluntários se revezam para ajudar o mundo a produzir menos lixo. Incrível não é?


Mesma ideia para roupas. Tem uma roupa que precisa de conserto? Eles fazem o possível para consertar… de graça


A ideia, que ainda está começando, é ter espaços de moradia segura, limpa e barata na cidade para receber os recém-chegados.

Share Thanks Giving

roubei essa foto do site
Eu tinha ouvido falar deles no ano passado, quando percebi que todo mundo que eu conhecia tinha um jantar de Dia de Ação de Graças… menos noix. Eu quis entrar, mas taba muito em cima da hora. A ideia é simples: canadenses recebem recém-chegados em suas casas e oferecem um jantar de Ação de Graças tradicional, explicam o significado do feriado e fazem amigos. Enquanto eu conversava com os criadores da ideia, uma canadense começou a chorar emocionada com a ideia. "Esse ano vou receber um exército lá em casa graças a vocês" ela disse. 



Web site de trocas de qualquer coisa por qualquer outra. Livros por livros, carro por reforma na cozinha, aula de desenho por bicicleta. 


Eu achei esse projecto absolutamente incrível. A ideia é trocar serviços sem o envolvimento de dinheiro. Então você oferece um serviço, por exemplo, aula de photoshop. Alguém "compra" esse serviço de você pelo site, você encontra com a pessoa e dá duas horas de aula. O seu pagamento é ganhar essas duas horas no site para trocar por qualquer serviço que você precise, como por exemplo tirar o lixo do meu porão. Achei ABSOLUTAMENTE genial. E ABSOLUTAMENTE  anti-capitalista.


Roubei essa também. Colheita de apricot
 Essa galera se reúne para colher frutos em espaços públicos ou privados, dividindo o que foi colhido entre o proprietario do espaço, os voluntários e bancos de alimento na cidade


Quer aprender algum oficio mas nao tem dinheiro? Sem problema! Pague com comida, objectos ou mesmo ajude seu professor em algo que ele precise.

Havia mais um milhão de ideias interessantes nesse evento. Algumas empresas que trabalham com a ideia de aluguel ao invés de compra de serviços e objectos também estavam presentes.

Evento cheio


Um dos muitos sistemas de aluguel de carros pela cidade. Outros que conheço são o ZipCar e o Car2Go.


Pra que ter uma bicicleta se você pode usar uma alugada em qualquer ponto do centro da cidade?


Em vez de ter uma biblioteca de jogos de tabuleiro em casa, por que não ir a um café (ou a um bar) com centenas de opções e jogar com os amigos? Meu irmão, morador de NY, veio à Toronto e amou a ideia.



Eles te levam prós parques mais famosos de Ontário que são impossíveis de chegar de transporte público. E dão todas as dicas.

Encerro dizendo que saí desse evento tendo um pouco mais de fé na humanidade.





02/05/2014

Minha noite na emergência

ou... O dia que meus gatos armaram contra mim...
(ou seria contra D. Mari?)

Outro dia, de noite, eu resolvi correr pela casa com meu gato. É uma das brincadeiras favoritas dele, correr atrás da gente. Tenho dois gatos de pouco mais de um ano. Eles são grandes. A Zoe pesa uns 5 quilos e o Zeca mais de 7kg. Correndo o bichinho parece um potro. 

Os gatinhos quando chegaram
O Zeca não sabe bem que é um gato. Ele poucas vezes viu um cachorro na vida (mas viu muito guaxinim pela janela), mas ele age como se tivesse crescido com uma alma canina. Ele pede pra brincar, adora correr atrás de uma bolinha, segue a gente pela casa, pede atenção e é super social com as visitas - principalmente as femininas - ele muitas vezes fica deprimido quando elas vão embora. 

A Zoe é mais na dela, brinca sozinha contra monstros imaginários e é louca por carinho na barriga. Dentro dela mora um motorzinho de ronrom que não para nunca. Ela conversa muito comigo e nos comunicamos muito bem - por exemplo ela não sobe no meu colo sem pedir permissão, que eu dou piscando os olhos demoradamente - e obedece quando a chamo pelo nome. Ela também prefere as visitas femininas, mas não dá muita bola pra ninguém antes de conhecer bem a pessoa - o que pode demorar meses.

Motor de ronrom
Anyways, eu estava em casa, de banho tomado e depois de jantar e o Zeca pediu pra brincar comigo. Estávamos brincando de correr atrás da mosquinha entre a sala e o quarto quando ele, num momento de distração minha, ele se enfiou no meio das minhas pernas. Eu perdi o equilíbrio, girei o corpo e bati de cara na parede. Tudo ficou preto senti minha boca encher de sangue. Girei o corpo e caí no corredor, com uma dor indescritível na boca.

D. Mari veio correndo (quer dizer, correndo mais ou menos que ela ta ruim das costas). Ela só viu meu corpo estendido no chão e dois gatos me olhando culpadíssimos. Espantada, me disse pra ter calma e não ficar com medo. Me levou no banheiro e limpamos minha boca. Eu cortei o lábio inferior em dois lugares - dentro e fora. A pancada foi tão forte que fez um buraco na parede em forma de dentes que ficou cheia de sangue. Não perdi os dentes por sorte. Bom, a Mari limpou o quanto pode mas disse que não sabia se eu ia precisar levar pontos ou não e que havia tinta presa no meu machucado que não saía.

Zeca pedindo pra brincar
Ligamos para um serviço do governo que te coloca em contato com uma enfermeira. D. Mari ligou e passou o telefone pra mim - a enfermeira queria falar directamente comigo. Ela perguntou meu nome e alguns dados. Eu respondi como pude e falei que mal conseguia falar devido ao corte na boca. Ela me perguntou se eu me sentia segura de deixar a Mari falar por mim. Eu disse que sim e passei o tel pra Mari.

As instruções que a enfermeira deu foram exatamente o que D. Mari já havia feito - limpar, colocar gelo etc. Só que por conta da tal tinta no lábio fomos parar na emergência do St. Michaels. 

No caminho eu falei pra Mari: vão achar que você me bateu. Se prepara.

E não deu outra. Respondi aos questionários da recepcionista quase sem conseguir falar. Queria que a Mari respondesse por mim, mas não deixaram. Enquanto esperávamos o atendimento ela era encarada com desconfiança pela staff e outros pacientes. Uma enfermeira me chamou num canto para fazer perguntas sobre como eu havia me machucado. Enquanto eu contava a historia (eu estava brincando com meu gato ele me atropelou e eu bati de cara na parede) notei que a história não fazia muito sentido. A enfermeira olhou para mim e perguntou:

Você tentou matar a mamãe!
Foi sem querer!


- Você se sente segura na sua casa?

- Sim, sim!

- Quem é aquela moça que veio com você?

- Minha companheira.

- Você sofre algum tipo de abuso?

- Não.

- algum episódio de violência doméstica?

- Não.

- Você tem certeza?

- Tenho! Foi o gato! E foi sem querer! Ele não queria, ficou assustado, pediu desculpas! Eu juro!

- Ok, você pode aguardar que a médica já vai te atender.

Voltei pro lado da D. Mari. Ela estava assustada.

- Tá todo mundo me olhando com cara de que eu bato em mulher em casa!

- Pois é. Eu te disse. Ninguém acredita na história do gato.

Gatos armando uma emboscada com seus olhos de laser.

Alguns minutos depois veio a médica. Ela me levou pra sala e achei que D. Mari estaria logo atrás da gente, mas ela não veio. Depois ela me disse que a enfermeira olhou feio pra ela e que ela achou melhor esperar do lado de fora.

Dentro do consultório, dois cartazes gigantes sobre violência doméstica.

A médica, novamente, me perguntou como tudo aconteceu.
Eu expliquei, já sabendo que ela não ia acreditar muito. Tentei colocar uma pimenta a mais, dizendo que eu sou mesmo desastrada:

- É que eu semper me machuco bestamente. Ano passado passei o ano inteiro quase sem andar por que caí da cama.

- Como assim, caiu da cama e ficou tanto tempo sem andar? O que realmente aconteceu?

Putz… acho que piorei as coisas, mais um acidente com cara de violência domestica.

- foi no méxico doutora, eu caí do beliche. Mas deixa pra lá.

Bom, ela limpou meu lábio. Havia pedaços da parede dentro do lábio e ela não conseguia entender como aquilo podia ter acontecido (foi o gato!). No final me liberou com a prescrição de ficar com gelo na boca e só.


Fomos pra casa. Eu com dor, D. Mari com horror.

Mas fiquei feliz de saber que eles te dão chance MESMO de falar em caso de estar sofrendo violência doméstica.

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ADENDO

No outro dia fomos fazer nossas taxas e eu ainda estava com a cara toda fudida. Contei a historia do gato para o contador que chamou a secretária portuguesa dele. Quando cheguei na parte em que todos achavam que D. Mari me batia ela contou que alguns anos atrás se queimou na cozinha com água quente. O Marido a levou no hospital e não havia quem acreditasse que ele não havia causado o acidente.



Sinistro.

15/04/2014

O tão falado Sistema de Saúde Canadense 2

Navegando pelo sistema de Ontário


Como eu comecei no post anterior, vou falar sobre como entender e navegar pelo sistema de saúde pública de Ontário. 
Sobre o que está coberto ou não e o sistema de saúde privado eu falei naquele post.

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Para ser atendido no sistema de saúde é preciso primeiramente tirar o Ontario Health Card. Para isso é necessário ser residente na província por três meses consecutivos. Após o período, você deve se dirigir a um Service Ontario Centre que é o centro de serviços responsável pela emissão não só do cartão de saúde, como da carteira de identidade, motorista, licenças várias e afins. Há uma lista de documentos e como tirar o cartão aqui. Você pode usar um localizador para achar um desses centros mais próximo a você




Uma vez com esse cartão na mão, você pode ir diretamente em qualquer walk in clinic, ou clinicas de pronto-atendimento (aqui uma lista das melhores de Toronto, ser atendido por uma ambulância ou ver seu médico de família.

Antes de conseguir o cartão, é importante ter um seguro de viagem que te cubra pelos três meses em que você está descoberto. Há uma lei que diz que estamos todos cobertos, mesmo quem está ilegal, mas como falei no outro post, há controvérsias.

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Médico de família e especialistas

Com a excessão das especialidades sem cobertura e para as quais você pode se dirigir directamente, no Canadá qualquer especialista que seja necessário ver deve ser indicado, primeiramente, pelo seu médico de família (sempre bom lembrar: qualquer família). É um sistema muito diferente dos sistemas em outros lugares do mundo o que causa muita confusão nos recém-chegados

O primeiro passo é achar seu médicoEsse processo pode ser longo e difícil, pois há menos médicos do que o que seria necessário… 
Bom, na verdade há muitos médicos aqui, mas boa parte deles está dirigindo taxis, coisa que já é piada tão antiga que virou um filme de bollywood… 



Achamos o nosso por indicação de um amigo. O médico dele era um moço mais novo e estava aceitando pacientes. A lista de médicos é grande, mas é difícil achar algum que esteja aberto a novos pacientes, ou que seja do sexo feminino, que seja perto da sua casa ou trabalho ou que fale sua língua. O nosso é homem e canadense, não fala uma palavra em português e fica do outro lado da cidade. A clínica lá é bem bonita, moderna e bem aparelhada. Ouvi falar que nem todas são assim. Tivemos que esperar uns 2 meses entre marcar a primeira consulta e efectivamente ver o médico pela primeira vez, mas depois disso conseguimos marcar consultas com uma semana de antecedência. 



Quando, finalmente, você conseguir um médico familiar, é marcada uma primeira consulta na qual ele irá avaliar você em um physical: eles tiram sua pressão, fazem diversos testes de sangue, urina, auscultam o coração, observam se você tem problemas de pele, faz o exame ginecológico (em caso de médico homem uma enfermeira deve estar presente), fazem exames nas partes masculinas também, próstata, enfim… te avaliam por inteiro. Esse exame você tem direito a fazer um por ano e é incluído no OHIP (Ontario Health Insurance Program). Se você não se sentir confortável para fazer o exame ginecológico com seu médico de família, ele pode te recomendar um ginecologista.

Depois disso todos os problemas de saúde que você tiver devem passar primeiramente por esse ser humano. Tudo (ou tudo que não for emergência e que for coberto pelo plano). Dor de cabeça, pé inchado, pinta com cara de câncer de pele. É ele quem vai fazer a primeira avaliação e, caso ache necessário, irá te encaminhar para o especialista.
O que, muitas vezes, pode ser frustrante.

D. Mari por exemplo, estava com uma pinta crescendo no ombro e, após 3 consultas com o médico ameaçou de processá-lo para conseguir ver uma especialista que confirmou: tinha que tirar. Eu tive uma dor horrível no pé ano passado e passei 4 meses aguardando por um especialista. Ele me indicava para um… e o médico demorava 2 semanas para responder que estava sem horário, daí ele me indicava para outro, e outro… Um dia fui lá e fiz um escândalo. Finalmente consegui a tal consulta. Nesse meio tempo meu pé piorou muito. 

Eu estou falando isso, mas acredite, eu gosto do meu médico. Eu gosto principalmente de uma das atendestes do meu médico que é uma jamaicana muito divertida. Mas se você quiser saber opiniões sobre os médicos antes de ir a uma consulta, você pode dar uma olhada aqui
Há inclusive uma lista dos melhores médicos de Toronto feita pela Toronto Life.  São médicos de diversas especialidades.

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Minha experiência pessoal com um especialista…


Então, demorei 4 meses para achar um especialista que me aceitasse.
Obviamente depois de ter esperado os primeiros 3 meses, eu apareci chorando em uma clínica particular. Lá fui atendida por uma quiroprata fofinha, que me deu desconto e me diagnosticou com fascine plantar. Ela me passou exercícios e passei 3 meses indo la 2 vezes por semana o que me fez ser capaz de ficar em pé de novo e andar pela rua (eu tava andando só de bicicleta. Daqui pra esquina, de casa pro trabalho a duas quadras daqui… se eu pudesse iria de bike da cama pro banheiro). 

Caribe mexicano. Ao fundo, ruínas Maias.
A história do meu pé doendo começou em dezembro de 2012, nos primeiros 3 dias de uma viagem que fizemos de 3 meses pela America Central e para o carnaval no Rio de Janeiro. 
Nós estávamos em Tulum, no Caribe mexicano, em um hostel onde ocupávamos um beliche, eu no andar de cima. Acordei, fui descer a escada de frente e, obviamente, escorreguei, caí, bati o pé no chão e senti uma dor tenebrosa. Fui orientada pela gerente do hostel a não procurar o serviço de saúde mexicano pois era muito ruim naquela cidade e ela me deu o endereço de um quiroprata. Fui atendida por ele que me apertou um monte e disse que eu tinha apenas distendido um tendão, que deveria passar o dia fazendo compressa de gelo, com o pé pra cima e, lentamente, voltar às minhas atividades normais. Que após uns 20 dias eu não sentiria mais dor. 
Dito e feito. Nos meus últimos dias no Rio, porém, comecei a sentir dor novamente. Procurei Mãe Priscila do Quintalzinho (nossa fisioterapeuta/acumputurista amiga que parece vidente pois sempre sabe o que está acontecendo com vc só de olhar na sua língua) que disse acreditar que o quiroprata estava certo. Me pediu confirmar com uma chapa de raio-x que, como eu já estava de partida, deixei para fazer no Canadá. 
Cheguei em casa, fui ao médico de família, ele me apertou, pediu uma chapa do pé. Eu fiz. Viram que havia uma fratura. Ele então começou a me encaminhar para os especialistas.  

Quando finalmente consegui um médico, era um cara todo bem renomado do St. Michaels Hospital, um cirurgião fodaço. Li sobre ele no Rate MDs e parecia que, finalmente, alguém ia tratar de mim. 

Saí correndo do trabalho, na hora do almoço, e sentei lá na fila de espera… por 3 horas. Me chamaram para tirar mais uma chapa do pé e em seguida fui levada para uma sala. Nessa sala haviam 3 macas separadas por cortinas. Esperei um pouco lá, veio uma enfermeira, mandou eu tirar a meia, veio um moço que eu não sei quem é e me perguntou do meu histórico, olhou o raio-x e fez alguns exames. Dez minutos depois veio o tal especialista. Conversou com os dois outros, olhou minha chapa do pé e disse: "Você está com uma fratura muito estranha para alguém da sua idade. Sou osso foi esmagado. Isso pode significar que vc está com perda óssea, pode ser que esteja com osteoporose. Além disso está com fascine plantar. Vai precisar fazer fisioterapia, comprar uma palmilha para esse pé chato (me deu uma prescrição) e ver um médico especializado em ossos".
Essa consulta com ele, se durou 5 minutos, foi muito.

Depois veio uma fisioterapeuta. A primeira pergunta que ela me fez foi: você tem plano de saúde? Quando eu disse que não ela trouxe uma folha com alguns alongamentos e mandou fazer uma série insana deles todos os dias. Insana significa que ela queria que eu fizesse 2 horas de alongamentos por dia. Me deu também um envelope com o numero para marcar minha consulta com o especialista em ossos. Eles mesmos me encaminhariam por dentro do hospital, mas caso eu não recebesse um telefonema em até 2 semanas, deveria ligar para marcar com a enfermeira responsável. Dentro do envelope várias informações sobre osteoporose, tratamentos, formulários e fotos "positivas" de velhinhos quebrados e sorridentes. Saí de lá, cruzei a rua e fui numa clínica particular de pés. Lá marquei uma consulta com o doutor que faria minha palmilha específica para o meu pé, seguindo a receita dada pelo médico. A conta? 60 pela consulta + 500 pela palmilha. Se eu tivesse plano, tudo estaria coberto.
ninguém merece receber esse envelope do alto dos seus 30 e poucos anos
Nem preciso dizer que não saí exactamente feliz ou positiva dessa consulta. Fui chorando até minha bicicleta e cheguei de olhos inchados no trabalho. Inventei uma desculpa e fui embora. Chateada. Chorei muito aquela noite. 

No dia seguinte fui ver minha quiroprata e ela discordou dos exercícios. Disse que era coisa demais e feito apenas para me deixar estressada. Ela aproveitou um ou dois daqueles exercícios e me mandou fazer por muito menos tempo. Também não concordou com a palmilha, mas disse que mal não haveria de fazer. Na época eu estava usando uma palmilha comprada no mercado que ela havia me indicado e que já estava fazendo efeito. resolvi fazer a palmilha cara assim mesmo e falei com meu pai que me deu de presente (certas coisas a gente pede de presente pra pai. Mesmo com mais de 3 décadas na cara). 
Fui na consulta com o tal médico que ia fazer o molde pra palmilha. Ele fez os mesmos exame que todo mundo e perguntas e falou mal dos meus médicos, fez o molde e tentou me vender uns tratamentos supersônicos. Na saída da consulta, já depois de ter pago, me arrependi muito. Achei o médico babacão. Mas já estava feito.


A tal enfermeira que deveria marcar minha consulta nunca me ligou. Eu liguei 2, 3, 5 vezes e, todas as vezes, me diziam que ela não estava naquele dia. Até que me enfureci e fui diretamente ao St Michael. Não era possível que eu pudesse contar com uma única enfermeira para marcar minha consulta. Eu recusava saber: tenho ou não osteoporose?! Chegando no hospital me dizem que é isso mesmo, ela é a única responsável pelo sector e que teria que esperar ela voltar de licença pois estava doente.




Depois de fazer exames em Copa, minha mãe
me acompanhava em passeios pela praia também.
Eu comecei a ficar realmente nervosa e acabei marcando uma passagem para o Brasil. Decidi na segunda que iria na sexta, quando acabava meu contrato. Comprei a passagem, liguei pra minha mãe e pedi para ela marcar tudo quanto é tipo de médico, mandei email pra Priscila, marquei o taxi. Na sexta, saí do trampo, vim em casa buscar a mala e de lá pro Rio. Chegando lá o médico da minha avó me atendeu, marcou mil exames para os quais minha mãe me levou. Em 4 dias eu já tinha feito todos os exames possíveis e imagináveis. 


consulta na frente do restaurante
Fomos encontrar o médico na Barra da Tijuca, pois ele não tinha mais horários e eu tinha que voltar ao Canada. Encontramos com ele e um outro médico que olharam minha ressonância, minha densidade óssea, meus raios-x e disseram: "Bárbara, não só tudo parece normal e seus níveis ósseos estão ótimos, como aparentemente você nunca quebrou nada. Seus ossos estão íntegros e não há nem mesmo qualquer cicatriz".

Pois é amiguinhos e amiguinhas… Eu nunca quebrei nada. Meus ossos são ótimos. 


Comemoramos a boa noticia com um mergulhinho em Ipanema

Maldito médico.

Voltei ao Canadá e, pisando aqui, no dia seguinte, me liga a tal enfermeira para marcar o exame de densidade óssea e minha consulta com a especialista. Resolvi ir pra ver como seria. Fiz o mesmíssimo exame que havia feito no Brasil, a densitometria, só que em um aparelho mais moderno. A médica me fez um monte de perguntas e mais alguns exames. Eu havia levado minha ressonância magnética (mas não a densitometria, claro) e ela entrou no google e traduziu o laudo. Gostei dela. Super aplicada, gentil etc. Depois de muito olhar meus raios-x ela disse: "Olha eu não sei o que esse médico viu. Não há fartura alguma aqui, seus ossos estão ótimos. Eu sinto muito que você tenha ficado assustada. O que você teve foi algum trauma que não foi cuidado até o fim, provavelmente você rompeu um ligamento, como te disseram no México, e esse trauma resultou numa fascite plantar. Continue usando a palmilha, indo na quiroprata e fazendo Tai Chi que você vai ficar boa logo logo".

Fiz isso. 
Tô boa.

Mas posso dizer que minha primeira experiência com um médico especialista aqui me fudeu financeiramente.
Pelo menos pude curtir o aniversário no Rio, cercada de amigos, curtir minha mãe. Isso foi em novembro de 2013, sendo que o problema começou em dezembro de 2012. Foda!


14/04/2014

O tão falado Sistema de Saúde Canadense

Uma introdução


Eu tenho uma lista de coisas que eu gostaria de escrever para este blog e nunca escrevo. Não é exactamente uma lista divertida, mas uma lista de coisas que podem ajudar quem esteja por aqui ou esteja pensando em vir morar nessas terras.
Sistema de Saúde, taxas federais, ajuda financeira (um bolsa família daqui que eu usei e foi de suma importância pra minha vida), mudança na lei de imigração e achando trabalho em Toronto, entre outras coisas, são assuntos que quero, eventualmente, tratar aqui.

Bom, vamos ao ponto.

O Sistema de Saúde Canadense, embora público, é bem diferente do SUS brasileiro. A primeira diferença é que embora exista o Canadian Medicare, o sistema de saúde é varia de província para província. 

Essa diferença engloba como ele é financiado, gerido e o que está incluído no seguro de saúde. De comum entre os seguros de saúde públicos das províncias há: 
- a administração deve ser pública
- deve ter larga abrangência de cobertura
-  universalidade
- acessibilidade (um conceito muito amplo que não entendo bem)

Além do sistema público, há também o privado, que cobre o que fica faltando no outro sistema. Não se preocupe: aqui não é os EUA e ninguém vai deixar de te tratar de um linfoma porque você não tem 200 mil pra pagar, nem você não vai ter que fabricar heroína num trailler no meio do deserto porque não tem dinheiro para pagar seu tratamento. Mas muitas coisas não são cobertas, ou não são cobertas em uma provência, mas são em outra. 

Exemplos de especialidades não cobertas em ontário são:

dentista
oftamologista
fisioterapeuta
quiroprata
psicologo 
acuputurista
fertilização in-vitro
transporte de ambulância quando não é totalmente essencial 
entre outras coisas.


Há excessões. Normalmente crianças e idosos tem cobertura diferenciada. O mesmo ocorre com famílias de baixa renda, mas, como é de se esperar, o atendimento particular é bem melhor que o público.

Pois é, temos um sistema de saúde particular. Eu imagino que para alguns isso soe estranho (pois todo mundo SABE que por aqui a saúde é pública) e para outros seja o mínimo esperado (a galera que pergunta: e se eu quiser pagar por um atendimento melhor?), mas o sistema de saúde particular aqui é bem diferente do que conhecemos no Brasil ou o que ouvimos falar nos EUA.

Ele cobre o que o seguro provincial não cobre. As coisas descritas acima, remédios, atendimento em casa, you name it. Esses seguros podem ser pagos por você ou pela empresa que te contrata (o famoso emprego com benefícios). Quando você vai à clinica de sua escolha ou compra o remédio da prescrição, apresenta o cartão do seguro e pimpa! tá pago.

Mais que isso eu não sei. Aqui só tenho o seguro da província e nada mais.
Tudo o que faço por fora eu pago do bolso. Ano passado gastei uma fortuna em quiroprata. Fazer o que? É a vida.

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E quem está coberto?

Bom, a ideia é que residentes da província estejam cobertos. Para ser considerado residente elegível, pelo menos aqui em Ontário, você deve estar legalmente na província há pelo menos 3 meses antes de pedir seu cartão de saúde. Isso significa que você está pagando os impostos provinciais que financiam o sistema de saúde pública.

Há regras sobre saídas da provincia e do país por longos períodos e é possível perder a cobertura. Mas eu imagino que, voltando e, depois de 3 meses, seja possível recuperá-la.

Quanto aos ilegais eu não sei como funciona. Ano passado passou uma lei que protege ilegais, trabalhadores migrantes e pessoas de passagem e que está causando fúria nos conservadores (os comentários abaixo das notícias sobre o assunto costumam ser pra lá de xenófobas… lembra um pouco os tenebrosos comentários do G1).

E mesmo havendo lei que garanta acesso a serviços essenciais a todos, muitas agências perguntam sobre o status do imigrante e, muitos deles, reportam o mesmo para a polícia e para a imigração. Por isso muita gente tem medo de pedir ajuda (das mais diversas ajudas que você possa imaginar).

Eu achei um site bem bacana que fala sobre o Sistema de Saúde de British Columbia, pelos olhos de quem acabou de chegar. Se você está indo para lá, dá uma olhada.

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No próximo post vou falar de como é navegar pelo sistema de saúde daqui que pode ser bem confuso para quem está chegando.