09/06/2015

Viagem para Detroit


Final de semana e a gente com aquele fogo que só passa se viajamos pra um lugar novo...

Semana passada estávamos entre ir para Cuba, Chicago, 1.000 Islands ou Detroit. Cuba era a favorita, mas teríamos pouco tempo por lá então não valia a pena, Chicago tava muito cara, principalmente por conta das passagens aéreas, 1.000 Islands dá pra fazer em qualquer final de semana, então decidimos por Detroit - que a gente sempre quis conhecer.

Detroit é uma cidade comumente associada à pobreza, crime, abandono, poluição, fábricas fechadas, desemprego e a casas que podem ser compradas a preço de banana.

E a verdade é que essa fama mesmo é o que mais nos atraia. Cruzamos a fronteira para descobrir se a fama condiz com a realidade.


RELATO DE VIAGEM

1o DIA

Partimos na quinta de manhã. Pegamos um ônibus que leva mais ou menos cinco horas de Toronto a Detroit e que foi a forma mais barata que vimos de viajar. Chegando na fronteira os guardinhas americanos fazem as perguntas de sempre... e mais algumas, acho que pra ver se eu estava mentindo. Depois de um pequeno interrogatório o guardinha, nesse momento já meu "colega", brincou comigo que eu, carioca, tinha ido morar em Toronto por conta da violência no Rio e agora ia passear em Detroit. Preventivamente me avisou que eu seria assaltada.

Vista da rua da rodoviária
Depois disso a chegada na rodoviária, que fica numa rua bem deserta, me deixou assustada e pegamos um taxi até o Hostel. DICA: negocie o preço da corrida antes E tenha trocado pra pagar, porque eles roubam MESMO.

Bom, chegamos no Hostel Detroit, onde fomos super bem recebidas. O hostel fica numa casa que foi reformada com ajuda da comunidade. Dentro dela, se vê quatro apartamentos que foram unificados no hostel. Lá se pode encontrar vários quartos comunitários ou privados, 4 cozinhas, 4 banheiros, salas de estar, sala de computadores, sala de filmes... Depois do Checkin, fomos passear pelas ruas da cidade.

O Hostel
Nosso quarto
De cara, fiquei impressionada. As ruas ao redor do hostel eram vazias, casas espalhadas aqui e ali, gramados mal cuidados. Caminhamos pela estrada quase vazia de pedestres. Descemos a Michigan Avenue em direção ao centro e a "rua movimentada" nos parecia quase deserta, em plena quinta feira. Chegamos ao centro mortas de fome e comemos MUITO MAL no HI e de la fomos dar uma volta. Claro que exageramos. Andamos tanto que nossos pés doiam loucamente. Na volta pro Hostel, já tarde da noite, mal tivemos forças pra tomar banho antes de capotar.

As ruas próximas no Hostel
Michigan Central Station
Me senti muito nos EUA passando por esse viaduto
Vista do viaduto
Michigan Avenue
Por todo lado Hortas Urbanas
The Book Tower

Monumento em comemoração à Estrada Subterrânea por onde escravos americanos
escapavam para o Canadá em busca da liberdade. Os prédios na frente são canadenses.
Delicia passear por aqui.
E descansar nessas espreguiçadeiras
Prédio da GM é assustador. Por dentro e por fora. Coisa de Ficção Científica
O People Mover custa 75 centavos e é um ótimo jeito
de ver o centro da cidade de cima
De dentro do People Mover
Demos algumas voltas pra descansar as pernas 
Greek Town
Lojinha no Greek Town
Em ruínas

2o Dia

Resolvemos alugar duas bikes no Hostel. A cidade é incrivelmente boa de pedalar. Não que a infra para bicicletas seja lá essas coisas, ou porque os motoristas sejam bem educados, mas porque as ruas são super largas e os carros são poucos. Além disso a cidade é toda plana e a maior parte das coisas que queríamos fazer ficava a 15/20 minutos de bicicleta.

Planejando o trajeto antes de sair do Hostel
Esse era o bairro onde estávamos
Casa abandonada
Lateral da Casa
Chegamos perto da Estação Central



Casinhas do Bairro

E uma fazendinha urbana
Mari num caso de amor e ódio com a bicicleta que freiava pedalando para tras.
De repente caiu uma chuva loca e fomos parar
nesse PUB ótimo chamado St. Cece
De lá pedalamos para o Museu da Motown que foi absolutamente emocionante.
Infelizmente o tour é MUITO rápido e caro, então faça o possível para ver tudo o mais rápido possível.
Infelizmente, eram proibidas fotos.
Mas lá dentro tem o estúdio original onde artistas como Marvin Gaye e Ray Charles gravavam.
Além da recepção fotos e mais fotos, filmes, roupas e adereços, dentre outras coisas.
Pedalando por ruínas achamos esse prédio.
Será que a palavra "piquete" de greve vêm daqui?




Resolvemos conferir o DIA, onde estava rolando uma exposicão do Diego Riviera e da Frida Khalo sobre o período em que passaram em Detroit, a convite dos Ford, para pintar um mural em homenagem à indústria automobilística.
Esse mural 
Coisa mais incrível


Pra encerrar a noite fomos no Boliche mais antigo da cidade
No qual fiz minhas poses incríveis e paguei cofrinho

3o DIA

Mesmo mortas, alugamos novamente as bikes pois queríamos explorar coisas longe do hostel.

Planejando o dia
Começamos aqui, no Eastern Market
Aqui se vende de tudo um pouco, flores, verduras e legumes, plantas, carnes, antiguidades 
Me impressionaram muito as flores
A Mari descobriu que as antiguidades são tão baratas
que vale a pena cruzar a fronteira só pra isso
Além disso ao redor há vários restaurantes.
Comi a melhor panqueca da minha vida em um deles
Em seguida fomos fazer o Free Walking Tour desses caras
Eles têm vários tours
Nossa Guia
Memorial ao Joe Louis
Guardian Building hall
Uma praia no centro da cidade


O people mover de novo
Cenário de filme

Almoço no Grand Trunk Pub, que fica onde
antigamente se vendiam bilhetes de trem
É lindo lá, mas não tiramos fotos. Alem da selfie, claro.
Depois pedalamos pelo Dequindre Cut para ir pro norte
Um lugar lindo e cheio de grafites maravilhosas 

Muito gostoso de pedalar por aqui


Chegamos no Heidelberg Project



As obras são muito bacanas
House of Soul

Algumas bem macabras
Infelizmente Tyree Guyton, o artista, nos pareceu meio babaca. Preferia não ter conversado com ele.
Outro artista localizado na mesma rua: Tim Burke. Com ele conversamos muito e gostamos a beça
Ele faz Raw Art 
Umas coisas bem bacanas, construidas com pedaços da cidade
Estávamos com fome e ele nos deu a dica de onde comer e beber cerveja boa.
Essa foi a primeira cervejaria de Detroit. Além de uma cerveja ótima, a comida é uma delícia.
E o bar é LINDO DE MORRER 
Eles usam produtos locais. E também têm um jardim no telhado

Eles plantam flores comestíveis, tomates, algumas folhas e temperos.

Têm até uma green house!
Logo em frente tem outra cervejaria
E a cerveja mais gostosa da viagem.

 4o DIA

Estávamos mortas. Acordamos moídas e atrasadas. Era dia de Parada do Orgulho Gay e queríamos ver o desfile, que começava ao meio dia. Infelizmente não deu - tivemos que comer e deixar as mochilas no locker da rodoviária e acabamos chegando às12:45 e o desfile já estava totalmente disperso. Acho que é tão pequenininho que deve durar apenas uns 30 minutos. Então fomos apenas na festa. Mas primeiro, fomos conhecer um estacionamento pra lá de luxuoso.

No 10o andar uma boa vista da cidade


Daí começamos a descer e descobrir as obras de arte em todas as paredes










FInalmente a Pride
Com direito a show da Tina Turner
Esses Drag Kings com essa menina fizeram o maior sucesso
Ganhando uma grana
No meio das barraquinhas encontrei
Daí o tempo fechou
Fomos ver um filme nessa prédio horrível
Chove chuvaaaaa 
Dentro do prédio parece Miami com esses coqueiros falsos
É isso. De lá fomos pra rodoviária e chegamos na segunda de manhã. Mortas e felizes.

Pra terminar, um videozinho 

15/05/2015

Renovação do Cartão de Residência - PR Card

O Cartão de residência canadense é dado ao imigrante no landing, ou na chegada, e é válido por 5 anos. Após esse período é necessário renovar o cartão, especialmente se você pretende viajar para fora do país.

O governo recomenda que, por conta do tempo de processamento que pode ser muito demorado (tipo meses) o residente aplique para um novo cartão quando faltar 6 meses para o vencimento do antigo.

Muito embora nós estejamos em Toronto a menos de 4 anos, nosso landing foi em Vancouver, em março de 2010 e como somos absolutamente viciadas em viajar, em novembro já estávamos juntando a papelada e as informações necessárias para renovar o visto. Demoramos muito pra juntar toda a documentação em parte por conta da nossa própria enrolação e em parte por conta do processo ser bastante burocrático.

Visando poupar um pouco de stress para os desavisados que por acaso parem por aqui em busca de informações, aqui vão algumas coisas que aprendemos preenchendo o formulário:

1. Leia e releia o site do governo

2. Faça o download dos formulários. Nesta mesma página, há um FAQ que salva vidas.

No formulário principal, o IM 5444, existe um document checklist que ajuda muito, porque a burocracia é grande e a gente se perde na documentação. Ou pelo menos nós nos perdemos.

3. Preencha os formulários IM 5444 e IM 5455. Se as páginas do formulário não forem suficientes, adicione quantas mais forem necessárias.


IM 5444 - PÁGINA 1


A. PERSONAL DETAILS

NAME
Parece óbvio, mas não foi pra mim e D. Mari. Primeiramente porque na chegada o fiscal de imigração colocou como parte do meu primeiro nome o sobrenome materno, então meu nome ficou sendo: 1o nome: Barbara sobrenome materno. Sobrenome: Sobrenome paterno. Eu, na época, fiquei confusa e não mudei isso (o que me causa muita confusão). E D. Mari, por sua vez, teve um dos sobrenomes cortado pois não cabia no espaço do 1o PR card. Então preenchemos essa parte exatamente como aparece no PR CARD, embora em nossos passaportes não apareça da mesma maneira.

Se você trocou de nome depois de chegar, aqui também é possível declarar essa mudança

SEX
Infelizmente só tem duas opções - ainda bem que nós cabemos em uma das escolhas.

O resto das perguntas dessa parte é bastante fácil - a única pegadinha é a parte do email. Caso você forneça o email toda correspondência se dará eletronicamente. Nesse tipo de coisa eu prefiro papel, pois posso guardar nos meus arquivos com mais facilidade, então não dei meu email.

B. IMMIGRATION HISTORY

PLACE YOU BECAME A PERMANENT RESIDENT
Outra vez algo que parece óbvio, mas não foi para a gente. Nosso primeiro destino no Canadá foi Vancouver, mas o aeroporto onde passamos pela imigração foi o de Toronto. Por conta disso nosso IM 5292, que é o papel que o cara da imigração grampeia no seu passaporte na entrada, constava que nosso destino era Vancouver, mas no nosso PR CARD constava o landing em Toronto. Decidimos dizer o que estava no IM 5292, ou seja, Vancouver, BC.


PÁGINA 2



C. PERSONAL HISTORY

Aqui começou o pesadelo pra gente. Tenho certeza que boa parte das pessoas não tem dificuldade nenhuma aqui, só que nós não somos como boa parte das pessoas: nós moramos em muitos lugares diferentes, trabalhamos em muitos lugares diferentes (somos free lancers) e viajamos muito e para muitos lugares. Então precisamos preencher um número enorme de duplicatas dessa página.

ADDRESS HISTORY
Pense que eles querem saber onde você morou todos os dias dos últimos 5 anos ou desde que você chegou pela primeira vez no Canadá.

No nosso caso: o hotel onde nos hospedamos na chegada em Vancouver, o apartamento que dividimos por três meses com outras pessoas, a casa de amigos onde nos hospedamos quando voltamos ao Brasil, a casa do meu irmão em NY onde ficamos por um mês antes de chegarmos a Toronto, o hotel que nos hospedamos por alguns dias na chegada à cidade, nossa primeira casa e nossa casa atual. Ou seja, coisa pra caramba. E tem que saber os endereços.

WORK AND/OR EDUCATIONAL HISTORY
Mesma coisa, só que para trabalho. Lembre-se que você tem que dizer o que fazia em todo e qualquer momento desde que chegou.

No nosso caso: na chegada: desempregadas em Vancouver, curso de inglês em Vancouver, empregada nesta, naquela e naquela outra empresa no Brasil, desempregada em NY, desempregada em Toronto. Curso disso e daquilo em Toronto. Desempregada em Toronto. Empregada na empresa X. Desempregada. Empregada na empresa Y. Desempregada no Brasil (pois estava de férias). Desempregada na América Central (pois estava de férias). Empregada na empresa X de novo. E por aí vai.

TRAVEL HISTORY
Mesmíssima coisa para cada saída do país. O que mais gostamos dessa lista foi o fato que perguntam não simplesmente para que países você viajou, mas também as cidades. No nosso caso é complicado dizer todas as cidades pois viajamos para vários países e cidades (nossa última viagem grande, para a Europa, está toda aqui nesse blog). Por conta disso nos baseamos nos nossos carimbos e colocamos apenas as cidades principais de cada país, sem maiores descrições, pois precisaríamos de mais de um milhão de páginas.

O número total de dias passados fora do Canadá não deve ultrapassar 1095 dias, lembrando que o dia em que se viaja é contado como um dia fora - mesmo que você tenha passado o dia aqui e viajado às 11 da noite. Esse dia é dia fora.

Caso ultrapasse, você deve ter uma boa explicação. No nosso caso estávamos com tudo certo, então não precisamos completar a sessão D.


PÁGINA 3



E. CONSENT TO DISCLOSE INFORMATION

Marque sim. O que isso significa é que eles vão buscar com a imigração as datas de cada vez que você entrou no Canadá para verificar que você está falando a verdade.

F. DECLARATION OF APPLICANT

Aqui você assina prometendo que fala a verdade.


PÁGINA 4



G. SOLEMN DECLARATION CONCERNING A LOST, STOLEN, DESTROYED OR NEVER RECEIVED PERMANENT RESIDENT CARD

Bom, essa página só preenche quem perdeu o documento de alguma forma.

ATENÇÃO: Todas as sessões devem ser preenchidas, nada deve ficar em branco. Se algo não é aplicável, a sessão G, no nosso caso, não era aplicável, todos os quadradinhos devem ser preenchidos com NA. Deixar algo em branco pode significar que sua aplicação será devolvida. O checklist do fim do formulário também deve ser enviado juntamente com o resto dos documentos.


SUPPLEMENTARY IDENTIFICATION FORM - IM 5455



Sinceramente eu não entendo porque pedem isso de novo, mas pedem. Não se esqueça de preencher e assinar. Leia as letras miúdas e NÃO COLE sua foto nesse papel.

4. É hora de juntar a documentação e é agora que aquele link que coloquei para o FAQ ajuda muito.



No nosso caso, submetemos, na ordem que aparece aí no checklist acima:

1. Aplicação IM 5444

2. Aplicação IM 5455

3. Primary identity document: página com nossas informações no passaporte brasileiro

4. Secondary identity document: confirmation of Permanent Residence (IMM 5292)

5. Additional documents of proof of residence in Canada in the past five (5) years:
(eles recomendam que se mandem dois documentos distintos)
    - A carta do CRA (Canada Revenue Agency) com o Income Tax Assessments
    - Cópia dos nossos passaportes, atuais e vencidos, dos últimos 5 anos com todas as páginas incluídas (inclusive as em branco). Essa foi uma das piores partes para preencher pois todos os carimbos que não estiverem em Inglês ou Francês devem ser traduzidas e essa tradução deve ser autenticada.

Aqui vou perder um tempo falando desse processo, pois foi bastante complicado nos entendermos nessa parte.

Desde que fizemos nosso landing, viajamos para diversos países na América e Europa, então tínhamos MUITOS carimbos gringos. Ficamos imediatamente em pânico pois sabíamos que essas traduções iriam custar caro. Então, ates de mandar traduzir qualquer coisa, o primeiro passo é entender o que precisa e o que não precisa ser traduzido.

Nesse primeiro exemplo, temos dois carimbos em espanhol que tiveram que ser traduzidos.
Essa tradução pode ser feita por um tradutor juramentado ou uma pessoa que jurem em frente a um juiz de um cartório que fala essa língua (no caso espanhol) e inglês (ou francês) fluentemente. Uma observação: essa pessoa não pode ser membro da sua família.

No nosso caso tivemos sorte o suficiente de ter amigos de várias partes da América Latina e pudemos alugar um deles pra fazer essa tradução pra gente.

Exemplo de Affidavit para tradutor

Já no segundo exemplo, temos uma diversidade enorme de carimbos que nos deixaram com a pulga atrás da orelha. Aqui divido o que aprendemos:

Na página 8 temos três carimbos:

No primeiro o HR significa Croácia, a seta significa que estávamos de saída, tem data, o modo de transporte, trem, e a cidade de fronteira: Koprivnica. Este stamp não precisa de tradução. O mesmo vale para o carimbo de baixo, de entrada na Hungria no mesmo dia. O outro carimbo é inglês.

Já na página 9, embora o carimbo pareça igualmente óbvio (entrada e saída de avião da Islândia), o nome que aparece ao lado da seta não é o nome da cidade, mas sim "Aeroporto de Keflavik", o que significa que tivemos que pagar um tradutor juramentado para fazer a tradução - o que não foi nada barato.


Uma observação sem muita utilidade: achei uma página na wikipédia com exemplos dos carimbos de todos (ou quase todos) os países do mundo. :)

Por último: todas as páginas que necessitaram ser traduzidas precisam ser autenticadas em cartório. Se você contratar um tradutor juramentado ele já manda isso pra você. Se você for com um amigo no cartório o juiz fará isso nesse momento. APENAS documentos (ou partes de documentos) que necessitem de tradução necessitam ser autenticados.

6. Two (2) photos placed in a small envelope - você pode ir a qualquer lugar para tirar essas fotos, mas elas precisam estar carimbadas. Eu e Mari paramos sem querer em um fotógrafo divertidíssimo na Spadina. Recomendamos muito ele, que te trata como se você fosse uma super star.



7. Cópia do recibo de pagamento fa taxa de 50 doletas.

Ah! isso me lembra da 5a coisa a se fazer:

5. pague a taxa!

Os outros documentos são necessários apenas caso você precise de provas adicionais, como, no nosso caso, das traduções.

Além de todos os documentos, anexamos em cada uma das aplicações uma carta explicando tudo que achávamos complicado de entender no nosso formulário. Decidimos fazer isso por conta de orientações da central de atendimento da própria imigração. Então nessa carta explicamos que viemos a primeira vez e ficamos pouco tempo porque não achamos trabalho, explicamos a grande lista de trabalhos e momentos de desemprego - sermos freelancers, etc.


6. Envie pelo correio. No caso enviamos como carta registrada, pois queríamos saber quando chegou ao destino, se deu tudo certo.

Bom, no site do governo eles estavam dizendo que o prazo para sair o cartão era de 5 a 6 meses, então imaginamos que demoraria pra sempre e fomos para o Brasil enquanto o outro cartão não vencia. Qual não foi nossa surpresa quando eles chegaram com menos de dois meses do pedido?! Ainda mais com a quantidade absurda de documentos que mandamos. Mas, no final, deu tudo certo.


Espero que esse testamento aí ajude alguém. Pra gente foi doloroso cumprir todas as etapas.

#fui

06/05/2015

Falar Inglês - parte II - aprimoramento


Muito embora eu tenha falado inglês a beça no Brasil (depois que decidi ser melhor que meu irmão), quando cheguei no Canadá passei algum tempo com medo de falar em público, de falar ao telefone, de participar de alguma discussão.

Passaram-se 3.5 anos desde que chegamos e eu sinto que meu inglês melhorou muito. Não é perfeito, não é sem sotaque, ainda gaguejo muito, erro tempo verbal, me faltam palavras. Tudo isso rola, mas me comunico muito bem, obrigado, trabalhando na área de comunicação.

Algumas coisas que ajudam o inglês a melhorar diariamente:


1. Televisão - veja muita tevê quando estiver em casa. Repita palavras que você ouve pela primeira vez e procure descobrir o que elas significam.

2. Netflix - veja filmes com legendas... em inglês.

3. Atenda as pessoas de telemarketing e faça com que elas te expliquem o que estão vendendo até que você entenda todos os pormenores. Dessa forma você pratica três coisas: o ouvido, a fala e diminui a inibição. Falar ao telefone é um verdadeiro desafio porque você não tem como fazer leitura labial ao mesmo tempo.

4. Converse com canadenses, peça às pessoas próximas que elas te corrijam (canadense normalmente não corrige), pergunte como se fala isso ou aquilo, abuse do small talk em qualquer lugar.

5. Leia jornal, revistas, artigos na internet, quadrinhos, romances, biografias, bulas de remédio. Leia tudo que cair na sua mão. E tenha um dicionário por perto.

6. Tente traduzir músicas em inglês para português e de português para inglês - ajuda muito.

7. Ouça rádio sempre que puder.

8. Ouça podcasts. Se você não sabe o que é eu explico: são programas de rádio para a internet, normalmente temáticos. Existem também antigos programas de rádio na internet para baixar. Bom, aqui uma lista dos meus favoritos:

- The Hitchhiker's Guide to the Galaxy 
é uma série de ficção científica. Hoje em dia pode ser encontrada no formato de livros, série de televisão, filme, revista em quadrinho... mas originalmente foi escrita como uma série para a rádio da BBC.

- Orson Welles - War Of The Worlds
Também ficção científica, essa peca para rádio adaptada do livro homônimo do escritor inglês H. G. Wells é famosa pelo pânico que causou ao ser transmitida ao público americano no Halloween de 1938. Imperdível.

- Serial
Documentário em 12 episódios sobre um crime ocorrido em Baltimore em 1999, quando um menino mulçumano foi acusado e condenado por matar sua ex-namorada. Totalmente viciante, esse podcast é o mais ouvido da América do Norte.

- Invisibilia
Programas sobre temas invisíveis que tangem nossas vidas. Recomendo muito o
"The Secret History of Thoughts".

- This American Life
Um programa antigo de rádio, de Chicago, que também é podcast. Em cada programa eles abordam um tema diferente, como sonhos, educação, espiões, vida selvagem na cidade... os temas são os mais variados e cada programa é dividido em varias partes, normalmente cada parte pode ser ouvida separadamente. Um dos programas que ouvi recentemente, "423: The Invention of Money" fala, dentre outras coisas, do Plano Real. Muito legal de ouvir.

- Savage Lovecast
Dan Savage é um sexólogo americano que responde perguntas sobre amor e sexo. Ele também fala muito de política. Só aviso aos navegantes que ele não têm papas na língua e o programa não é bipado.

- Star Talk
Programa do astrofísico Neil Degrasse Tyson sobre... ciência em geral, na verdade. Ele explica fisica pra gente, sabe? usando comédia. Então é muito divertido.

É isso. Bom inglês procês.

Falar Inglês - parte I - Good morning miss Smith

Inglês é uma língua que eu não falo desde pequenina.

Minha mãe ouvia Beatles e Janis Joplin e Bob Dylan em casa e, basicamente, não entendíamos nada.

Os filmes eram falados em inglês, mas magicamente as legendas os tornavam inteligíveis.


A televisão era dublada, então eu não perdia nada.

Na escola, passei a vida fingindo que aprendia os verbos irregulares. Aprendi a colar de diversas formas e passei.

Minha mãe comprou um curso de idiomas que vinha com fitas cacetes. Todos em casa tentamos aprender... tinha muita música. Até hoje lembro da letra:

- Good morning Miss Smith!
- Good morning!
- Come in, come in!
- Oh, thank you!
- This is for you.
- For me?
- Yes, for you.
- Oh, thank you, thank you, thank you...


Apesar de lembrar da música, não aprendi inglês com aqueles livros e fitas e músicas.
Fiz curso de Inglês na Cultura Inglesa e CCAA, mas posso dizer que eu era ruim, muito ruim.

Acho que eu realmente comecei a aprender inglês pra ter razão quando discutia com meu irmão mais novo. Acho que é coisa comum isso: querer ganhar discussão com irmão. Muitas de nossas discussões infinitas geravam em torno da minha banda de rock favorita: Guns n' Roses. E eu comecei a decorar as letras só pra poder jogar na cara dele que ele não sabia nada sobre nada.




Logo eu comecei a traduzir as letras das músicas. A comprar revistinhas nas bancas que vinham com a letra original e a tradução. Comecei a comparar as palavras originais com as traduzidas. Depois disso passei a tentar juntar as palavras escritas nas legendas dos filmes com o que era falado pelos personagens. O próximo passo foi ajudar turistas na rua.

Eu me achei sempre muito esperta nisso de aprender inglês ajudando turista. Mal sabia eu que essa é a técnica mais antiga do mundo. Tudo bem.



04/04/2015

Pequena crônica sobre racismo velado (mas nem tanto)

Eu estava com uma colega de trabalho, certa vez, e começamos a conversar sobre o planejamento urbano de Toronto. A cidade, embora grande, parece ter um certo ar de cidade média, ou mesmo pequena, por conta da grande quantidade de casas e pequena quantidade de edifícios. Mas isso está mudando rapidamente por conta da construção de mais e mais arranha-céus (diga-se de passagem - a maioria horríveis). Conversávamos sobre uma área específica da cidade onde há uma loja muito famosa chamada Honest Ed's que será fechada em breve, pois o dono faleceu e a familia não quis assumir. O terreno onde está a loja é imenso e nele serão construídos restaurantes, escritórios, condo's e prédios com apartamentos para aluguel.



Pois é, aqui existem prédios em que todos os apartamentos são alugados e esse tipo de edifício atrai imigrantes recém-chegados, o que, segundo minha colega, era preocupante.

"por quê?" eu perguntei, embora eu soubesse que é porque é foda esse monte de "imigrante sujo"  que está invadindo Toronto. Eu vi esse pensamento se formando na cabeça dela.

Daí ela mandou essa:

- Não querendo falar mal, mas imigrante chega aqui, não respeita nada, não fala inglês, sai fazendo sujeira e destruindo a propriedade dos outros....

E ela me olhava com um olhar que um pouco se desculpava (não você que é limpinha), um pouco procurava em mim uma cumplicidade naquele discurso (porque, afinal, eu sou limpinha).

E ela continuou, falando como os imigrantes chegavam e, porque a comida aqui é cara mesmo, eles começavam a plantar comida nas varandas e isso destruia as varandas que, de tempos em tempos, tinham que ser derrubadas e reconstruídas.


Esse aí tem a maior cara que ta destruindo o modo de vida canadense
e a propriedade alheia, claro!

- Mas o que é que têm as plantas a ver com a destruição de varandas?

- É que esse pessoal fica jogando água nas plantas e essa água entra no concreto, congela e destrói as varandas.

- Mas como é que a água congela se não dá pra plantar no inverno? E como é que a água cai no chão, se tudo é plantado em containers?

- Você realmente acha que eles vão lá na Home Depot comprar o container certo pra fazer horta? Esse pessoal não respeita nada! Eles pegam lata, balde, caixa de ovo, qualquer coisa, e saem plantando! E se acham muito espertos! E depois as varandas caem e quem paga por isso?

Ahhhh! Esses imigrantes não prestam mesmo.

Se você se pergunta da minha reação... bom eu ria.
Fazer o quê?

Depois dessa conversa ela me perguntou sobre o que eu ia fazer no final de semana.
Infelizmente eu tive que mentir.

A verdade é que eu e mais duas imigrantes sujas íamos fazer um workshop sobre como fazer hortas urbanas em containers e em pequenos espaços.... como varandas em edifícios altos.


Esses containers são meus... :P





Só um adendo: dos 20 inscritos no curso apenas eu e minhas amigas éramos imigrantes. O resto tudo canadense - quase todos brancos.

Só rindo

Canadá idealizado

Quando estou no Brasil vira e mexe pessoas me felicitam por morar no Canadá: "lá não tem corrupção", "o sistema de saúde funciona", "lá não tem pobreza", "o povo é bem educado", "lá o povo é mais aberto" e por aí vai.

Eu gosto de comparar o Brasil com o Canadá para ilustrar meus pontos de vista esquerdistas e liberais - se aqui tem algum leitor que não me conhece, saiba que sou de esquerda, liberal, bissexual, feminista e pra frentex e que isso molda todo o meu discurso sobre qualquer coisa. "Esteje" avisado.


Tenho verdadeiro gosto em falar das coisas que funcionam aqui. Tipo: gosto de me sentir segura na rua, de não ser tratada como um pedaço de carne. Gosto de poder tratar minha namorada normalmente, em qualquer espaço. Fico feliz de saber que aqui a maioria dos partos é natural e que toda mulher tem o direito ao aborto. E, pra irritar conservadores, gosto de falar dos seguros governamentais daqui - pois que, quando chegamos, usamos por um ano o Bolsa Família canadense. Esse Bolsa Família - que tem tempo indeterminado e é maior quanto maior for a familía, vejam vocês, fornecia um pouco mais de mil dólares mensais para a nossa, além granas extras pra transporte, prática de esportes, compra de roupas e de mobilia/eletrodomésticos para casa. Essa grana nos permitiu nos estabelecer em Toronto e começar nossa vida. Eu gosto de me usar como exemplo disso. Especialmente para pessoas próximas que se referem a pessoas que usam o Bolsa Família como vagabundas.

Apesar das muitas diferenças, cada vez mais vejo muitas semelhanças. O ser humano é ser humano em qualquer parte.


Uma coisa que o canadense tem de muito parecido com o brasileiro é o racismo dissimulado. Ok, o racismo aqui é diferente - e, vale a pena saber, a dissimulação também - mas não menos presente.

No Brasil o racismo é voltado principalmente contra a população negra e indígena - em certos lugares do país. Também poderíamos falar de um racismo contra alguns imigrantes - imigrantes não-brancos, porque os brancos são mais que bem vindos. De qualquer forma, quando falamos de racismo no Brasil normalmente estamos falando de pessoas negras, pardas ou indígenas.



Toronto é a cidade mais multicultural da América. Aqui se falam mais de 140 idiomas (português é a 5a língua, além de inglês e francês, mais falada da cidade) e as minorias visíveis estão por toda parte. Metade da população da cidade é composta por pessoas nascidas fora do país. Aqui, além dos meus muitos amigos brasileiros e alguns canadenses, convivo ou tenho amizade com chineses, portugueses, filipinos, mexicanos, americanos, ingleses, haitianos, persas, russos, indianos, albaneses, gregos, israelenses, vietnamitas, jamaicanos, argelinos, venezuelanos e gente sei lá mais de onde.

As culturas, as religiões, as línguas, os cheiros, as comidas, o jeito de se expressar... Toronto é um caldeirão cultural que, por vezes, é incrível e, por vezes, nefasto. 

Aqui de repente, deixei de ser branca e virei latina. Mas... sou latina como os mexicanos ou guatemaltecos ou bolivianos são latinos? Me pergunto muito isso porque não sou visivelmente latina. Até eu abrir a boca, posso perfeitamente ser canadense. E mesmo assim, quando falo com meu sotacão, posso ser quebecois. Então mantenho certos privilégios brancos e não consigo me assumir totalmente "latina".Tenho me referido a mim mesma como white latina, que eu achei que me define bem.



Mas quando vêem meu nome impresso.... daí é óbvio que não sou daqui. Aliás, meu nome, que tem 4 partes, primeiro nome, sobrenome da mãe, conectivo, sobrenome do pai.... meu nome é praticamente incompreensível por aqui. E pretendo mudá-lo quando já estiver com a cidadania resolvida, porque essa confusão dá trabalho.

Muitos canadenses odeiam as minorias visíveis, embora a maioria negue isso sempre. Os que mais ouço falar mal são os indígenas, negros, chineses, portugueses e indianos. E o mais engraçado é que os imigrantes também têm problemas uns com os outros.

Um amigo querido, brasileiro, trabalha na rampa da Delta Airlines, ou seja, é um daqueles caras que joga tua mala pra dentro do avião e pra fora do avião. Ele adora o trabalho dele que, embora pague pouco, o permite viajar de graça para qualquer lugar - e ele e a esposa aproveitam isso ao máximo. De qualquer forma, esse meu amigo, fazendo graça com os companheiros de rampa, mandou essa:

- O melhor é que todo mundo aqui é imigrante, todo mundo aqui sofre discriminação, mas todo mundo aqui se odeia.

Todos riem.

Pois é.

Bom, esse post foi introdutório ao próximo.
Fim.