18/02/2012

Blind date gastronômico

Anos atrás, sentada no meu sofá no Rio de Janeiro, eu estava assistindo um dos muitos programas sobre NY e vi uma matéria sobre um restaurante às escuras, onde as pessoas experimentavam comer de olhos vendados. Desde que assisti àquele programa, comer às escuras virou uma espécie de sonho encantado que, vez por outra, voltava à minha cabeça.
Alguns dias atrás uma amiga convidou eu e D.Mari para comer na versão canadense do restaurante. Topei na hora. D.Mari achou que não ia gostar e não topou, infelizmente. Então ontem, sexta feira, Rosa fez uma reserva para 4 (amigos) no O.Noir. Deveriamos chegar lá por volta das 5:45pm para o primeiro serviço da noite, mas excitada, saí de casa 4:20pm.
Do caminho, liguei pra Rosa:
-       Socorro, to excitadíssima. Já saí de casa!
-       Eu também estou. Já estou saindo de casa também.
Tu tu tu tu tu
O telefone desligou.
Ligo de novo:
-       Rosa?
-       To tão ansiosa que desliguei o telefone sem querer!
-       Então ta. Te encontro na port...
Tu tu tu tu tu tu
Fui a última a chegar, como sempre, perdida. Rosa e mais 2 amigos igualmente ansiosos esperavam na mesa. Tiramos fotos e recebemos o menu.


Foto
Quando você chega no restaurante, que fica num subsolo na Church St., a primeira coisa que se faz é sentar numa lounge para decidir os pratos. São 4 escolhas para entrada, prato principal e sobremesa. Alem das quatro, que incluem saladas, massas, risotos, frutos do mar e carnes, há a opção de prato surpresa que encantou a mim e à Rosa.
Imediatamente elegemos prato surpresa de entrada, enquanto os meninos escolheram o polvo. Já estávamos a caminho de escolher o prato principal surpresa quando um dos meninos falou: “Acho arriscado. Vai que eles levam um macarrão com molho de tomate? Imagina a decepção.” Então decidimos que o prato principal iríamos escolher. Eu e Edu fomos de veado e Rosa e Felipe de camarão com risotto. Na sobremesa todo mundo menos Edu, que não quis arriscar em nada e escolheu um bolo de chocolate, foi de prato surpresa.
O metre  anotou os pedidos e perguntou se tínhamos alguma alergia ou preferências. Rosa não come carne e eu não gosto de amendoim na comida. Pedimos um vinho pra acompanhar.
-       Vocês estão prontos? Ele perguntou.
-       Sim!
-       Então me acompanhem.
Fomos até um corredor onde havia portas para diversos salões. De dentro de uma das portas saiu a garçonete, de óculos escuros.
-       Essa é a Diana, ela vai ser a garçonete de vocês por essa noite.
Diana disse “Olá” e, em seguida, mandou que desligássemos os celulares e tirássemos relógios que brilhassem no escuro. Em seguida mandou que formássemos uma fila indiana e colocássemos a mão um no ombro do outro. Entramos em uma ante sala. Ela pediu que fechássemos a porta. Quando ouviu que estava fechada, abriu uma segunda porta e nos orientou a segui-la.
O breu era total. Tipo: TOTAL.
Rosa depois disse que teve um pouco de medo da situação. Era como se, de repente, estivéssemos todos cegos (como Diana). A garçonete nos levou, de dois em dois, para a mesa. Explicou onde deveríamos deixar casacos e bolsas e mapeou, para nós a mesa à frente:
-       Na mesa há um pequeno prato com manteiga em cima. Em frente a isso, seus guardanapos. À direita garfo, à esquerda faca. Se vocês precisarem de qualquer coisa é só me chamar. Volto em breve com o pão.
 A gente tateava a mesa tentando localizar as coisas. Rosa tinha certeza de que ela não tinha guardanapo. Eu não achava minha faca. Estávamos sozinhos nessa sala, sabe-se lá de que tamanho, totalmente escura. Edu logo disse:

-       Cara, esse é o lugar perfeito para um assassinato.
Edu conta sobre seus planos de assassinato no restaurante
Nisso a garçonete volta com o pão.
-       Eu estou aqui. Estendam a mão e peguem o pão.
Eu tinha certeza de que ia ser uma zona. Que iríamos derrubar a cesta, que ia ser uma loucura. Mas a garçonete tinha mãos firmes e correu tudo bem. Então começamos a tentar passar manteiga no pão. E a conversar. Deus! como falávamos alto. Não sei se para compensar o silêncio do ambiente ou a falta da visão. Nisso entra a garçonete com um casal. Abaixamos o tom de voz e percebemos que há uma música que eu defini como “não óbvia” e que o lugar não tinha odor absolutamente algum. A garçonete volta novamente com água. Depois com o vinho. Depois com mais gente a sentar nas mesas.
Quando, finalmente, chega a entrada, o salão começa a encher. Do outro lado alguém pergunta: “Vocês estão comendo o polvo? Como está?” "Uma delícia!”
Os meninos comiam polvo (com as mãos porque era realmente absurdamente difícil acertar com o garfo) e eu e rosa brigávamos com uma salada surpresa. A salada estava deliciosa. mas não conseguíamos saber do que era feita.
-       Beterraba, eu disse.
-       Batata doce, ela disse.
-       Cogumelo.
-       Não, certamente é raiz. 
Rosa e eu, tentando descobrir o que tinha na salada.
Veio a garçonete novamente recolher os pratos (Estendam o prato para mim, deixem os talheres) e trazer a comida. Meu veado estava uma delícia e Rosa estendeu um camarão pra mim. Estendeu no breu total, com a mão, e eu não achava... quando finalmente comi estava uma maravilha. Edu então resolveu pregar peças na gente e mover os copos de lugar. Ao redor as outras mesas, falavam alto, brincavam e com isso a ansiedade de estar no escuro total diminuía.

Porque, você achava que se acostumara e, de repente, notava: tudo preto.

Quando veio a sobremesa Edu disse: Aposto como a sobremesa vai ser sorvete e eu vou comer um bolo delicioso.

A sobremesa era, efetivamente, sorvete. Mas de quê? E embaixo havia uma fruta. Um gosto de álcool também. E cravos. Que fruta era? Que sorvete? Estava uma delícia.
Saímos extasiados. Na hora de pagar pedimos para saber o que havíamos comido. A entrada havia sido salada de cenoura com Rúcula (UAU!) e a sobremesa maçã cozida com cravo e sorvete de vanila.

Nós quatro na mesa. Foto tirada pela garçonete.

Foi uma experiência deliciosa e o fato de não usarmos vendas e sim estarmos em um ambiente totalmente escuro faz com que não haja como “roubar” tirando a venda só um segundinho para olhar o que está comendo ou ajeitar a comida no garfo. Ao mesmo tempo, o breu total também te dá o conforto de que ninguém está vendo a sujeira que você está fazendo ao tentar colocar o risotto no garfo.

Não é um passeio barato (a conta saiu 44.00 CAD mais o vinho, 30.00 CAD /4, mais gorjeta) mas super valeu à pena (imagino que, no Brasil, a conta seria R$ 180,00 + vinho de 80,00 + gorjeta).
Já programo voltar com qualquer visita que queira ir.



5 comentários:

  1. Li para o Pedro e ele riu muito. Principalmente das fotos e respectivas legendas. Eu particularmente fiquei um tanto em pânico. E também achando que o gosto da rúcula seria fácil de identificar: não foi não? Como isso é possível? Mas adorei o relato, as fotos, o bom humor. Beijos e saudades da sua mamãe.

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  2. a rucula sim, mas e a cenoura? nada facil. Que pena q vc ficou em panico, pretendia te levar. :(

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  3. Adorei as fotos.

    Daniel

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  4. Ai, leva eu!! Eu quero!!

    Aliás, adoreeeei as fotos no escuro!! hahahaha.... Vc devia escrever mais vezes... :)

    Saudade de vcs. Ansiosa por junho!! Beijocas, queridas!!

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